A TEORIA DO CAOS E O ESPIRITISMO
Breno Henrique de
Sousa*
1) Introdução
O Espiritismo não tem uma visão oficial sobre
todos os assuntos porque muitos deles surgiram depois da doutrina, mas isso não nos
impede de, na condição de estudantes do Espiritismo, traçar paralelos entre a nossa
doutrina e qualquer outro conhecimento. Particularmente, prefiro ser cuidadoso ao traçar
certos paralelos, o que pode ser arriscado quando se preza pela cientificidade. O
espiritualismo em geral utiliza-se, por exemplo, de conhecimentos da física quântica
para construir teorias mais ou menos consistentes. Considero o que disse o físico
teórico e crítico da ciência Jean- Marc Lévy-Leblond:
Por que não aplicar a teoria da
relatividade às relações amorosas? E a teoria dos quanta à inflação monetária? Por
que não realmente? Mas cabe aos que tentam operações desse gênero fazer a
demonstração de que elas são pertinentes! Em ciência, não se pode assinar cheque em
branco. [...] Poderíamos evocar numerosas teorias físicas para tirar
analogias mais ou menos esclarecedoras em relação a fenômenos biológicos ou sociais
isto é velho como a ciência [...] Não me oponho a semelhantes
utilizações, ou desvios, com a condição de que não haja confusão [...] (in:
PESSISPASTERNAK, 1993).
É claro que a formação de hipóteses é uma
etapa do método científico, porém as hipóteses sozinhas, não se podem dizer
científicas. Apesar de tratar de um tema científico, defendo que, o paralelo que agora
faço entre Doutrina Espírita e Teoria do Caos, não é científico. Trata-se apenas da
construção de hipóteses e de observações, ainda superficiais, feitas entre estes dois
campos do conhecimento, entretanto, acredito que este seja um campo aberto à pesquisa da
ciência Espírita, por isso resolvi expor minhas observações pessoais no intuito de
contribuir com o avanço de pesquisas que possam comprovar ou desmentir minhas hipóteses.
2) O que é a teoria do
Caos?
Para traçar um paralelo é necessário ter alguma
noção do que se trata esta teoria. As observações feitas aqui a esse respeito foram
baseadas, sobretudo na obra de Gleik (1989). A Teoria do Caos observa a ordem oculta que
existe na natureza por detrás de fenômenos aparentemente caóticos, esta ordem pode ser
observada tanto em estruturas humanas como na
A nível microscópico pode-se dar o exemplo dos
fractais que são estruturas observadas na natureza com regularidade geométrica e beleza
incríveis, estas estruturas regulares e com padrões definidos, surgem em diferentes
objetos ou seres, demonstrando um padrão de organização na natureza.
A diferença foi que Lorenz usou equações não lineares para realizar suas simulações de como se comportava o clima. Ele alimentava as equações com dados iniciais das condições climáticas e em seguida o programa começava a produzir gráficos de previsão climática.
O tempo era visto como algo que não podia se
expressar na forma de medias, a idéia era de que influências muito pequenas podem ser
postas de lado (o mesmo para as previsões de rotas astronômicas, as previsõesm
econômicas etc), porém qual não foi a surpresa de Lorenz quando no seu computador teve
que reiniciar uma seqüência de simulação climática e ao alimentar os dados do seu
computador, em vez de seis casas decimais usou apenas três casas por achar que os
milésimos decimais não afetariam significativamente o resultado; percebeu ele que o
gráfico começava sem nenhuma diferença do anterior, mas em determinado ponto ele se
diferenciava drasticamente revelando que as condições iniciais determinam sensivelmente
os resultados, ou seja, as três casas decimais que ele achou que não seriam importantes,
foram responsáveis por uma mudança completa na simulação.
Em 1972 Lorenz lançou um artigo de grande
repercussão intitulado Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil
desencadeia um tornado no Texas?, o artigo foi apresentado em 1972 em um encontro
a) se um simples bater de asas de uma borboleta
pode ocasionar um tornado, então todos os bateres anteriores e posteriores de suas asas,
e ainda mais, as atividades de outras inúmeras criaturas também o poderão;
b) se um simples bater de asas de uma borboleta
pode ocasionar um tornado que, de outra forma, não teria acontecido, igualmente pode
evitar um tornado que poderia ser formado sem sua influência.
O que Lorenz queria dizer é que insignificantes
fatores podem amplificar-se temporalmente de forma a mudar radicalmente um estado.
Assim, a previsão do tempo em longo prazo continua
a ser algo inalcançável, pelo fato de que nossas observações são deficientes e os
arredondamentos que utilizamos, inevitáveis.
O efeito borboleta recebeu o nome técnico de
dependência sensível das condições iniciais. A partir daí deixava-se de lado o
preceito de que as influências muito pequenas não são determinantes ou que pouco afetam
os resultados.
O fato é que a Teoria do Caos destrói a
possibilidade de previsibilidade absoluta dos fenômenos (o sonho laplaciano) uma vez que
é impossível não trabalhar com arredondamentos quando se estudam sistemas caóticos
como o clima, destrói também a mecanicidade do universo (a visão cartesiana) fazendo
com que o cosmo não seja mais visto como um relógio e sim comparado a um organismo vivo
que mais parece ter livre arbítrio. No estudo se sistemas caóticos como o clima, as
estatísticas econômicas e sociais, a dinâmica de fluidos, podia-se observar que
fenômenos aleatórios apresentavam globalmente padrões de comportamento ou uma
ordem que surge no meio do caos. Um sistema caótico podia ser estável se sua
irregularidade específica perdurasse diante de pequenas perturbações.
O sistema de Lorenz era um exemplo disso, o caos
descoberto por ele, com toda a sua imprevisibilidade, era tão estável quanto uma bola de
gude numa tigela. Poderíamos acrescentar ruído ao sistema, sacudi-lo, agitá-lo,
interferir no seu movimento, mas quando tudo se acalmava, quando as interferências
passageiras desapareciam como ecos num precipício, o sistema voltava ao mesmo padrão
singular de irregularidades de antes. Era, portanto localmente imprevisível e globalmente
estável. Os padrões de regularidade encontrados no clima ou nas variações da bolsa de
valores, quando expressados graficamente, são similares às estruturas fractais
encontradas na natureza, é como se todas as coisas estivessem sob uma ordem oculta que as
dirige e organiza, mesmo quando parece haver apenas o Caos.
Um outro exemplo disso foi quando astrônomos da
Nasa puderam observar uma enorme mancha vermelha no planeta Júpiter, uma espécie de
furacão estável que se movimenta no sentido anticiclópico. Depois de muitos anos
descobriram do que se tratava, e indagavam como podia em meio a um sistema caótico e
imprevisível como o clima, surgir um sistema estável? A mancha vermelha é um sistema
auto-organizador criado e regulado pelas mesmas mudanças não lineares que criam a
agitação imprevisível à sua volta. É o caos estável!
Mesmo que as coisas sejam imprevisíveis
pontualmente ou em um lugar específico, elas apresentam uma tendência global que emerge
em todos os lugares, na natureza, na economia ou no comportamento social. Ou seja, as
grandes nações estão sempre em alternância de ascensão e queda, as estações do ano
sempre se repetem, as alterações da bolsa de valores seguem tendências matemáticas que
podem ser previstas ao nível de macroeconomia por equações alineares inspiradas no
modelo de Lorenz.
Equações alineares são mais adequadas para o
estudo de sistemas caóticos do que as lineares, a geometria euclidiana também se torna
limitada para o estudo dos fractais. O estudo dos fractais já é usado na agronomia para
determinar a estrutura do solo de forma muito mais eficiente, e na biologia para o estudo
de dinâmica populacional de espécies. O Caos também influi em todos os campos da
ciência que trabalham com modelos de previsões, até para jogar na loteria se usa o
Caos, depois da relatividade e da mecânica quântica é o campo mais revolucionário da
ciência moderna e pasmem, influi também na educação e na filosofia.
Edgar Morin é um dos que se inspira no Caos para
nos falar de complexidade. A complexidade surge porque o Caos revela um universo muito
mais rico e imprevisível do que as teorias de Newton, Descartes e Laplace. O mundo é
complexo e imprevisível, e mesmo que as coisas sigam uma ordem e uma tendência, e no
todo todas as coisas obedeçam a esta ordem, nos níveis inferiores não existe
determinismo.
Podemos então observar que os sistemas caóticos
surgem com determinadas características: a auto-organização; espontaneidade e
antideterminismo; são localmente imprevisíveis e globalmente estáveis; são alineares;
sofrem dependência sensível das condições iniciais; são interdisciplinares (o Caos
rompe com as fronteiras que separavam as disciplinas científicas) e são complexos.
3) Caos e suas
possíveis relações com o Espiritismo
Para o Espiritismo Deus é a causa da ordem que
emerge do caos, suas leis são as mesmas que fazem com que todos os fenômenos tenham uma
tendência auto-organizadora. Conforme nos diz Kardec:
A harmonia existente no mecanismo
do Universo patenteia combinações e desígnios determinados e, por isso mesmo, revela um
poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso é insensatez, pois que o
acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso
inteligente já não seria acaso. (L..E.1 q.8).
A ciência do Caos revela que na verdade não há
caos na natureza, sistemas aparentemente caóticos são imprevisíveis e instáveis apenas
a nível local e pontual, se vistos de maneira global, logo surge a ordem que é inerente
à natureza das coisas, assim como no Espiritismo, sabe-se que as leis de Deus existem em
todo o universo e que todas as coisas, mesmo as que parecem caóticas, seguem uma ordem
oculta, esta ordem é inerente à própria natureza das coisas e não imposta
externamente, esta ordem surge ou emerge e como o próprio nome diz, são
"propriedades emergentes", tão estudadas na ecologia profunda. De outro modo,
podemos comparar esta ordem a Lei Divina ou Natural onde a harmonia que reina no
universo material, como no universo moral, se funda em leis estabelecidas por Deus
Mas o que faz todos os fenômenos naturais estarem
sujeitos à mesma ordem e tendência organizadora? Talvez a natureza da própria matéria
seja a resposta para essa questão. Antigamente concebia-se que a matéria podia ser
composta de diferentes elementos primordiais que lhe daria as diferentes qualidades que
possui, porém desde 1857 os Espíritos nos dizem que a matéria é formada de um só
elemento primitivo e que suas diferentes propriedades são resultado da modificação que
as moléculas elementares sofrem, por efeito da sua união, em certas circunstâncias
(L.E. q.30, 31).
Os avanços da física de partículas e da
mecânica quântica demonstram uma realidade muito próxima, na verdade hoje é pouco
preciso usar a expressão moléculas elementares porque na verdade não
existem moléculas elementares, a matéria é energia, o que chamamos de partículas podem
ser ao mesmo tempo uma onda de probabilidade ou partículas, possuem qualidades paradoxais
e em determinados momentos assemelham-se mais a bolsões de energia do que
propriamente a uma partícula e suas propriedades a nível subatômico são inconcebíveis
para o nosso estado de percepção tridimensional.
Os espíritos utilizaram o vocabulário
disponível, vocabulário que eles constantemente se queixavam da sua limitação e
pobreza para definir coisas desconhecidas para nós. Os espíritos anunciaram inclusive a
impossibilidade de apreciarmos essas moléculas (L.E. q.34). Assim, tendo a
matéria a mesma natureza comum e a mesma origem, é natural que toda a matéria esteja
sujeita as mesmas leis.
Para o Espiritismo toda a matéria possui o mesmo
princípio comum e é regida pelas mesmas leis naturais:
Há um fluido etéreo que enche o
espaço e penetra os corpos. Esse fluído é o éter ou matéria cósmica primitiva,
geradora do mundo e dos seres. São-lhes inerentes as forças que presidem às
metamorfoses da matéria, as leis imutáveis e necessárias que regem o mundo. (Ge.2
Cap. VI, 10).
Deus não é um legislador que vive impondo regras
de fora para dentro na natureza. Não! Suas regras já fazem parte da natureza e todas
elas tendem à ordem, porque a ordem está implícita na natureza. Por outro lado, mesmo
que a ordem seja implícita, isto não impede o livre arbítrio relativo à nossa
condição inferior.
Se, por exemplo, o clima é caótico a nível
pontual, não se pode prever o clima com precisão absoluta, porém ele segue padrões a
nível global como nas estações do ano, assim, o Caos também observa que se o homem
interfere em um sistema caótico, ele pode até conseguir desestabilizar momentaneamente a
ordem que surge do caos, como quando causa alterações climáticas pela poluição, mas,
em seguida, cessada a interferência humana, a natureza se restabelece porque a ordem faz
parte da natureza das coisas.
Não podemos aí fazer uma comparação com a
visão do livre arbítrio no Espiritismo? Sim! O Homem tem livre arbítrio e por isso ele
pode momentaneamente alterar a ordem da natureza, mas esta ordem se restabelecerá porque
ela é inerente à própria natureza. Temos liberdade de ação, mas nossa ação, apesar
de ser desorganizadora, não altera os princípios que regem o universo e estes
princípios acabam restabelecendo um dia.
Esta abordagem resolve a aparente contradição de
como podem existir leis divinas e livre arbítrio ao mesmo tempo. Nosso livre arbítrio é
relativo à flexibilidade das leis naturais que nos permitem intervir na ordem dos fatos
sem com isso alterar a natureza das próprias leis existentes em todas as coisas.
Liberdade absoluta é um contra-senso quando se concebe a existência de leis universais
ou quando se fala de vida
O Caos também torna mais aceitável a idéia de
que os Espíritos interferem nos fenômenos da natureza, se, como Lorenz disse, o bater de
asas de uma borboleta é capaz de causar um furacão, ou seja, que pequenas
interferências, quase imperceptíveis, são capazes de provocar profundas modificações
em um fenômeno em uma escala de tempo adequada; então para alterar fenômenos naturais
de grande escala, não é necessário uma interferência monumental, com grande
desperdício de energia ou de força.
Existem chaves na natureza, pontos onde uma pequena
interferência pode provocar uma espetacular mudança, os espíritos detentores destes
conhecimentos, podem facilmente manipular estas chaves tendo controle sobre os
fenômenos naturais.
O Espiritismo se adiantou no tempo e negou a
possibilidade do caos e do acaso até mesmo nos fenômenos naturais:
São devidos a causas fortuitas,
ou, ao contrário, têm todos um fim providencial, os grandes fenômenos da Natureza, os
que se consideram como perturbação dos elementos? Tudo tem uma razão de ser e
nada acontece sem a permissão de Deus (L.E. q.536).
A fatalidade é algo que não existe de forma
absoluta, só há fatalidade nas provas que escolhemos para esta vida ou na hora do nascer
e desencarnar (L.E. q. 851, 853), as leis naturais conjugadas com os nossos compromissos
cármicos dirigem o gênero de vida que temos, mas não há um controle específico para
cada passo que damos.
Aqui na terra estamos sujeitos a pequenos
incidentes que são próprios do estado material em que vivemos, sem que cada pequeno
acontecimento tenha um significado cármico. Como nos mostra a Teoria do Caos, a vida é
localmente caótica e globalmente estável.
Os fatos corriqueiros da vida, como um tropeção
ou uma enfermidade simples, acontecem de maneira casual ou caótica (no sentido de que
não há um controle específico para estes fatos), porém trata-se de uma desordem
submissa a uma ordem maior que dá a estes fatos o limite da trivialidade.
Não há um controle para cada passo da vida, assim
como não há um controle específico para cada alteração do clima ou da bolsa de
valores, porém há uma ordem geral que limita o aparente caos existente nas coisas, esta
ordem pode ser percebida quando observamos os fatos com uma visão além da ótica pontual
e individual e transcendemos para uma percepção global e holística. (L.E.q.859).
Quando o Caos afirma que não há determinismo
localmente, mas há leis globais, isso está consoante com a teoria das predições
proposta pelo Espiritismo. Não se podem prever acontecimentos com detalhes específicos
como data e hora. Determinados fatos estão propensos a acontecer, porém a forma
particular e o momento em que se realizam estão sujeitos ao livre arbítrio do homem:
Pode, portanto, ser certo o
resultado final de um acontecimento, por se achar este nos desígnios de Deus; como,
porém, quase sempre, os pormenores e o modo de execução se encontram subordinados às
circunstâncias e ao livre arbítrio dos homens, podem ser eventuais as sendas e os meios.
Está nas possibilidades dos Espíritos prevenir-nos do conjunto, se convier que sejamos
avisados; mas, para determinarem lugar e data, fora mister conhecessem previamente a
decisão que tomará este ou aquele indivíduo. Ora, se essa decisão ainda não lhe
estiver em mente, poderá, tal venha ela a ser, apressar ou demorar a realização do
fato, modificar os meios secundários de ação, embora o mesmo resultado chegue sempre a
produzir-se. É assim, por exemplo, que pelo conjunto das circunstâncias, podem os
Espíritos prever uma guerra que se acha mais ou menos próxima, que é inevitável, sem,
contudo, poderem predizer o dia em que começará, nem os incidentes pormenorizados que
possam ser modificados pela vontade dos homens. (Ge. Cap. XVI, 13).
Os Espíritos, na condição de erraticidade, podem
mais facilmente prever os acontecimentos, interferir em nossas vidas, porém deve-se
desconfiar daqueles que dão informações muito precisas:
Os Espíritos, que formam a população individual
do nosso globo, onde eles já viveram e onde continuam a imiscuir-se na nossa vida, estão
naturalmente identificados com os nossos hábitos, cuja lembrança conservam na
erraticidade. Poderão, por conseguinte, com maior facilidade, determinar datas aos
acontecimentos futuros, desde que os conheçam; mas, além de que isso nem sempre lhes é
permitido, eles se vêem impedidos pela razão de que, sempre que as circunstâncias de
minúcias estão subordinadas ao livre arbítrio e à decisão eventual do homem, nenhuma
data precisa existe realmente, senão depois que o acontecimento se tenha dado. (Ge. Cap.
XVI,16).
Uma outra contribuição do Caos é diluir a visão
linear e simplista que temos das relações de causa e efeito. Ao lerem-se filósofos
empiristas como Hume e Berkley e Locke observa-se que as relações de causa e efeito não
são tão simples e lineares, elas podem ser influenciadas inclusive por nossas
expectativas. David Hume (1711-1776), não acreditava na imortalidade da alma ou em Deus,
se dizia agnóstico, porém ele acreditava que existiam leis imutáveis, mas por causa de
nossas experiências vividas criamos expectativas assim, podemos facilmente nos enganar na
relação de causa e efeito, por exemplo; uma galinha pode criar uma relação de causa e
efeito baseada na seguinte observação: todas as vezes que ela escuta os passos do
granjeiro, em seguida vem a ração, estabelece a relação de que a conseqüência dos
passos do granjeiro será sempre mais comida, mas, um dia, depois de ouvir os passos do
granjeiro, ele quebra o pescoço da galinha.
Na verdade nós podemos agir como a galinha e
enxergar uma relação de causa e efeito onde ela não existe.
A complexidade é uma característica que demonstra
que as coisas não funcionam mecanicamente e são tantos os fatores que agem em um
fenômeno, que é impossível fazer diagnósticos e previsões quanto ao carma e destino
de cada um. Entender a complexidade é uma prevenção contra explicações simplistas,
como o justificar que alguém nasceu aleijado porque usou mal as pernas em outra vida, ou
que nasceu sem um braço porque usou este membro para chicotear escravos na encarnação
passada.
Apesar observarem-se casos de uma relação direta
de causa e efeito, isto não se aplica a todas as circunstâncias. A lei de causa e efeito
sempre se aplica, mas não necessariamente de forma linear o que tornaria intragável esta
lei e a própria reencarnação.
Muito se poderia dizer a respeito deste vasto campo
científico que veio acrescentar à Doutrina Espírita ao mesmo tempo comprovando o
pioneirismo e atualidade do Espiritismo perante a ciência e contribuindo para uma visão
mais profunda, seja no campo da compreensão da matéria e dos fenômenos da natureza ou
da sua filosofia e teoria social. Este ensaio abre apenas uma discussão e como todas as
coisas que se iniciam, é como uma pedra bruta que precisa ser lapidada pelas réplicas e
reflexões de todos os leitores. A ânsia de contribuir no desenvolvimento do pensamento
doutrinário nos fez ousar escrever este texto na expectativa de que seus frutos sejam
positivos.
Muita paz!
Autor: Breno
Henrique de Sousa
*Membro da
Federação Espírita Paraibana e do Núcleo Espírita Eurípedes Barsanulfo.
4) Referências
CAPRA, F. O Tao da física. São
Paulo: Cultrix. 1986.
GLEIK, J. Caos: a construção de
uma nova ciência, São Paulo: Campus.1989.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos.
Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB. 1944.
KARDEC, A. A Gênese. Trad. Guillon
Ribeiro. Brasília: FEB. 1944.
MARITAIN, J. Introdução Geral à
Filosofia. Rio de Janeiro: Agir. 1966.
MORIN, E. Ciência com
Consciência. São Paulo: Bertrand Brasil. 2000, 350p.
PESSIS-PASTERNARK, G. Do Caos à
Inteligência Artificial: quando os cientistas se interrogam. São Paulo: Universidade
Estadual Paulista, 1993.