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Programa de Filosofia Espírita

Que o Espiritismo é uma filosofia, não há dúvida. Além de seu próprio fundador tê-lo assim definido, provam-no suficientemente Ivonne Castellan (que não é espírita), em seu livro "O Espiritismo", e Herculano Pires, na Introdução a "O Livro dos Espíritos", edição de 1958. Além disso, ele tem sido assim encarado pelas principais publicações acadêmicas de filosofia, a começar pelo "Vocabulário Técnico-Científico de Filosofia", do Lalande, até o recentíssimo "História da Filosofia no Brasil", de Jorge Jaime. Apesar disto, infelizmente, alguns conselhos fossilizados de algumas faculdades retrógradas ainda teimam em recusar teses ou monografias que tratem o Espiritismo como filosofia ou Kardec como filósofo.

Temos que considerar, entretanto, que Kardec, ao compor sua obra, fugiu deliberadamente do "espírito de sistema" e da terminologia específica que costumam caracterizar os escritos de filosofia, principalmente os modernos. E assim o fez porque sua intenção não era erigir mais um sistema de filosofia destinado aos eruditos ou às prateleiras, mas, sim, reunir subsídios para a transformação do homem e da sociedade.

Isto não impede, porém, que, seja para nosso diletantismo, seja para aumentar nossa visão de conjunto ou aprofundar nossa compreensão da doutrina, façamos um estudo sistemático da obra. Ou seja, busquemos nela as sugestões de soluções para os milenares problemas suscitados pelo pensamento filosófico. Como acontece com todas as filosofias, as soluções espíritas têm que ser garimpadas ao longo de toda a obra. Mas, é possível iniciarmos uma busca direta nos trechos em que essas sugestões estão mais explícitas.

Os grandes problemas filosóficos têm sido agrupados didaticamente pelos diversos autores em três campos:

teoria do conhecimento,

teoria do ser, e

teoria dos valores.

Para ficarmos apenas com as obras de Kardec, podemos apontar a seguir os pontos em seus escritos onde os diversos problemas filosóficos foram abordados.

A teoria do conhecimento engloba a lógica, a gnosiologia (ou teoria do conhecimento filosófico), e a epistemologia (ou teoria do conhecimento científico). A gnosiologia espírita pode ser encontrada principalmente no LE (O Livro dos Espíritos), Parte 1a., Cap.II e nas questões 10, 11 e 42. A epistemologia espírita encontra-se em G (A Gênese), Cap. I; LE, Introdução; E (O Evangelho Segundo o Espiritismo), item II da Introdução; e LM (O Livro dos Médiuns), 1a. Parte, Caps. III e IV.

Na teoria do ser, ou ontologia, ou metafísica, vamos encontrar a cosmologia, a antropologia, a psicologia, sociologia, economia, ecologia, pedagogia, etc. A metafísica espírita pode ser encontrada no LE, Partes 1a., 2a. e 3a.; e na G, Caps. IV em diante.

A teoria dos valores abrange a axiologia, a ética, a estética, e podemos acrescentar também a religião, a teologia, o direito, etc. Isto pode ser encontrado no LE, Partes 3a. e 4a.; G, Cap. III; todo o E; em todo o CI (O Céu e o Inferno); em muitos pontos da Revista Espírita e Obras Póstumas.

Finalmente, para satisfazer aos materialistas dialéticos, podemos dizer que a filosofia espírita delineia sua práxis no LM e no E.

À vista deste painel, alguns questionamentos poderiam já ser levantados para debate num Programa de Filosofia Espírita:

A ética de Kardec é patrística, agostiniana, prega uma moral divina e dogmática? Ou pode-se perceber nele uma moral mais prática, compreensiva, aberta a diferenças de comportamento?

E a estética? Kardec escreveu numa época em que se perseguia a perfectibilidade na arte. Nos textos sobre estética, tanto de Kardec como do Espírito Alfred de Musset, traça-se uma linha evolutiva positivista, considerando as manifestações artísticas primitivas como monstruosas, por não reproduzirem bela e fielmente o objeto como nas expressões renascentistas e modernas que, em certos momentos, tornam-se matemáticas. Depois de Kardec vieram o expressionismo, o cubismo, o concretismo, enfim todas as manifestações de arte contemporânea na arquitetura, na escultura, na pintura, na poesia, etc. Aqui, como no problema da intuição, que veremos mais adiante, a razão foi superada por uma percepção imediata na leitura de uma obra de arte.

Na cosmologia kardecista nota-se a forte presença de Camille Flammarion, um dos mais conceituados astrônomos da época. Nessa área também o alcance de nossos conhecimentos foi enormemente ampliado por teorias e equipamentos após Kardec. A cosmologia espírita de hoje poderia prescindir de gente como Hawking, Capra, para falar dos mais conhecidos?

Seguindo esse caminho, poderíamos partir para o estudo de cada disciplina filosófica, começando pela teoria do conhecimento. Como o nome da disciplina diz, trata-se de problematizar o conhecimento questionando sua possibilidade, origem, essência, formas, além de discutir o problema do critério ou validade da verdade.

Especificando, na questão da possibilidade do conhecimento temos, digladiando-se, de um lado o dogmatismo e, de outro, o ceticismo; no meio, as posições do relativismo, do pragmatismo e, principalmente, a tentativa kantiana de síntese com seu criticismo ou agnosticismo.

Na discussão sobre a essência do conhecimento, chocam-se o realismo (ou materialismo) de um lado e, de outro, o idealismo, em suas concepções objetiva e subjetiva. De novo há uma tentativa de conciliação com o fenomenalismo kantiano.

Quanto à origem do conhecimento, temos o racionalismo e o empirismo se opondo desde a antiguidade clássica, passando pela patrística e a escolástica medievais, entrando na modernidade com Descartes de um lado e Bacon do outro, chegando a uma tentativa de reconciliação também com Kant e o apriorismo.

As formas de conhecimento são, de um lado, a discursiva ou racional, que é o conhecimento científico e, de outro, a intuição. Ora prevalece uma, ora outra na preferência dos pensadores, alguns achando que são excludentes, outros que são complementares.

Os critérios de aceitação da verdade podem ser: a concordância do juízo com a realidade, a coerência, a eficácia, a verificabilidade, ou uma propriedade própria do objeto.

Essas diversas correntes de pensamento, com suas causas e conseqüências gnosiológicas e ideológicas, podem ser melhor detalhadas no estudo da bibliografia sugerida logo adiante.

Mas, podemos já começar a buscar as soluções espíritas para esses problemas.

Na questão da possibilidade do conhecimento, Kardec, tal como Kant, chega a uma síntese. Inicialmente poderíamos cair na tentação de enquadrá-lo como dogmático, porque ele admite, tranqüilamente, a possibilidade do conhecimento científico. Várias vezes se refere a "verdades demonstradas", "dados positivos já adquiridos", apela sempre para a lógica, a razão e o bom senso. Por outro lado, poderíamos enquadrá-lo como cético quando à possibilidade do homem conhecer "o princípio das coisas", a verdadeira natureza de Deus, ou até mesmo, pasmem, a idade da Terra! Mas, ao contrário de Kant, ele não é fideísta, ou seja, não relega esses "objetos incognoscíveis" ao campo da fé. Ele acredita que são incognoscíveis para o estado atual do homem: "falta-lhe um sentido", algumas "faculdades". Com o progresso, com a evolução, o espírito vai conhecendo cada vez mais Deus, a eternidade, até o infinito. Dessa forma, o conhecimento não só é possível, como é uma forma ou condição de evolução.

Na questão da essência do conhecimento, sem dúvida o Espiritismo é idealista, uma vez que admite uma consciência suprema, criadora de todas as coisas, portanto, anterior à matéria. Admite, porém, a existência do mundo das coisas, e vê a matéria como o laço que prende a consciência, e se torna o elemento sine qua de seu progresso. Mas esse dualismo, consciência versus matéria, é circunstancial, já que tudo se interliga, "do átomo ao arcanjo", vindo tudo de Deus, num monismo essencial.

Quanto à origem do conhecimento, o Espiritismo considera duas situações: a do homem e a do espírito. Ou seja, neste último caso, compreende-se o espírito imortal, princípio inteligente individualizado e no primeiro, esse espírito quando encarnado, isto é, num segmento da sua existência. Poderíamos, ainda fazer distinção entre personalidade e individualidade. Assim, a personalidade é a manifestação limitada da individualidade permanente. Limitada no tempo e na condição, o que explica as dificuldades do homem com relação às possibilidades do conhecimento. Mas, o homem quando nasce (ou o espírito quando renasce) traz consigo todos os conhecimento e experiências do passado, evidentemente sedimentados em camadas profundas do inconsciente espiritual, não obstante ativos em forma de tendências, vocações e reminiscências que irão interagir, num processo dialético, com o patrimônio genético e com o meio ambiente, na formação da personalidade.

Já o Espírito, em sua origem, é criado por Deus "simples e ignorante", porém destinado a evoluir na existência, pela experiência, no contato, também dialético, com a matéria em variadas dimensões (corpo versus perispírito; plano terreno versus erraticidade) servindo-se, para isto, desde o início, das categorias a priori.

Quanto às formas de conhecimento, podemos notar que Kardec não abordou a intuição da mesma forma que Bergson e outros. Para o Espiritismo, a intuição soma-se a outras formas de comunicação com os espíritos. A mediunidade torna-se, assim, uma forma aceita de conhecimento, ao lado do conhecimento adquirido por um esforço científico. Porém, mesmo o conhecimento mediúnico é discursivo, na medida em que não pode contrariar a lógica, a razão e as verdades estabelecidas cientificamente. A elaboração do Espiritismo deu-se de uma forma discursiva, racional, mediata, científica. Até a compreensão de Deus é limitada pela razão e feita através da tentativa de identificar seus atributos. Onde ficaria, então, em Kardec a intuição, entendida como uma apreensão imediata, pelo espírito, do objeto cognoscente? Os contemporâneos de Kardec, influenciados pelo positivismo, reagiam a uma época pré-moderna que admitia o conhecimento místico do Universo, uma vez que toda a realidade está em Deus, podendo, então, ser apreendida pela contemplação mística. Mas, hoje, quando vivemos uma pós-modernidade, os conceitos holísticos levam-nos a crer que, como partes do todo, temos o conhecimento de todo o Universo em nós mesmo, bastando desembrulharmos esse conhecimento dos equívocos da razão. É uma volta triunfal da intuição. Seria também o Espiritismo holístico, ou estaria escravizado ao paradigma mecanicista?

Estes seriam alguns dos problemas que levantaríamos e tentaríamos resolver num Programa de Filosofia Espírita. Sempre seguindo este método: através da bibliografia filosófica estudaríamos as disciplinas, os problemas e as soluções apresentadas na história, e as cotejaríamos com a doutrina espírita, buscando as soluções desta.

Para orientar um estudo sistematizado da filosofia espírita, poderíamos utilizar, por exemplo, a seguinte bibliografia:

Para a compreensão de todo o painel dos problemas filosóficos com as diversas tentativas de soluções, o excelente compêndio "Introdução à Filosofia", do professor Luís Washington Vita. Para um melhor detalhamento dos problemas do conhecimento, poderíamos ler a "Teoria do Conhecimento", do neokantiano Johannes Hessem, e "O Problema da Verdade", do materialista dialético Jacob Bazarian. Para ver a aplicação de um estudo sistemático às diversas filosofias ao longo do tempo, poderíamos utilizar o extenso e maçante "História da Filosofia", dos católicos Padovani e Castagnola, ou o digestivo "História da Filosofia", do americanista Will Durant. Finalmente, para conhecer a Filosofia Espírita, podemos nos servir da obra completa de Kardec e da extensa bibliografia produzida pelos pensadores espíritas, deste e do outro mundo.

 

João Alberto Vendrani Donha

cele@cele.org.br

Centro Espirita Luz Eterna - CELE

Curitiba-Pr

 

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