
Pergunta Sobre o Livre-Arbítrio
Recebi, através do e-mail de contato do site, uma pergunta bastante interessante. Reproduzo abaixo a pergunta e a resposta que enviei, omitindo o nome e dados de quem pergunta.
Pergunta:
a mãe de uma criança contrai AIDS durante o tempo de gestação e o filho, em decorrência, contrai a mesma doença e isto não estava no seu programa reencarnatório. Como explicar isso para um grupo de estudo espírita, tendo em vista a lei de causa e efeito e que a criança virá a sofrer por um ato impensado de sua mãe?
Resposta: devemos inicialmente
considerar que o livre arbítrio é inviolável, e ao exercê-lo, podemos sim,
peremptoriamente, causar sofrimento e dor a outras pessoas, mesmo que estas não
"mereçam" essa dor. Por isso seremos responsabilizados, proporcionalmente a dor
e ao sofrimento que causarmos.
Se todo sofrimento e dor que causarmos a outra pessoa estivesse "programados", não haveria responsabilidade nossa, seria decorrente de um determinismo, que anularia o livre arbítrio.
No caso específico, admitindo, para efeito de análise, que se mãe contraiu AIDS por (ir)responsabilidade única e exclusiva sua, durante a gravidez e passou-a ao filho, por isso assumiria a total responsabilidade, pois causou dor e sofrimento e provavelmente encurtou a vida de quem, necessariamente, não precisava passar por isso. Digo necessariamente, pois se aquela criança tivesse nascido com a "programação reencarnatória" de ter AIDS, a mãe também teria nascido com a "missão" de ter AIDS. Existiria assim responsabilidade e livre arbítrio? Claro que não.
Isso foi injusto para o filho? Claro que sim, e a mãe responderá por ter perpetrado essa injustiça. Poderia o plano espiritual ter evitado isso? Claro que não, pois em caso contrário não existiria o livre arbítrio e a responsabilidade individual.
Se tudo no mundo estivesse "programado", se todos que sofrem injustiça "merecessem" ser injustiçados, se todos os que são assassinados "merecessem" ser assassinados, se existisse um "karma" ou "programação reencarnatória" determinando isso, inexistiria o livre arbítrio, seria tudo determinístico, tudo se processaria pela "vontade divina", que imporia a dor, o sofrimento, etc. É nesse "deus" que acreditamos? No "deus" do "olho por olho"? Não, nós acreditamos no Deus de Amor, Naquele que quer nossa evolução, que nos criou para "aprendermos a sermos felizes", Aquele que nos deu o "poder" de sermos "co-criadores", de "sermos deuses", como tão bem lembrou o Mestre Jesus.
Também é importante refletir que a "programação reencarnatória" não é determinística, ou seja, não estabelece a trajetória e todos os fatos da vida de uma pessoa, ou seja, não "está escrito" tudo o que temos de passar. Essa "programação" é muito mais probabilística, indica tendências, tudo sob a possibilidade de modificação derivada de nosso livre arbítrio e da influência do uso do livre arbítrio por outras pessoas, pois vivemos em sociedade, numa vida de efetiva relação e interações "não programadas".
Devemos ainda nos lembrar que a "Lei de Causa e Efeito" é reativa para quem é a causa, para quem promove a ação. O efeito específico retorna individualmente a quem desencadeou a ação. No exemplo em questão, a mãe desencadeou a ação, contraindo AIDS, e receberá de volta o efeito disso. O seu filho foi atingido por essa ação, sendo o "espelho", o "ponto fixo" para o efeito que retornará a mãe, nesta e em outra(s) vida(s). Nesse caso a doença do filho não está vinculada a uma "causa e efeito" dele. Para ele essa "Lei" não está aplicada, pois não foi o agente da ação. Foi passivamente injustiçado pelo ato errôneo de sua mãe.
Para maiores subsídios sobre a questão do livre arbítrio, sugiro a leitura de dois artigos meus, "Ninguém morre antes da hora?" e "Ninguém morre antes da Hora? - parte II", que estão disponíveis no site.
Quero lhe alertar, para que não se espante se o grupo de estudo não entender prontamente isso. Infelizmente, grande parte dos Espíritas não cumprem o que Kardec preceituou: "Espíritas, amai-vos e instrui-vos". Quão poucos de nós amam verdadeiramente. Pouquíssimos se instruem no verdadeiro estudo da Doutrina, preferindo o fundamentalismo impensado, o comodismo de "pensar" (e querer) que tudo na vida está "programado" e decidido pela "programação reencarnatória", que tudo é responsabilidade do nosso "passado ignoto", das influências dos "espíritos inferiores", esquecendo que somos nós, e apenas nós mesmos que determinamos o nosso destino e construímos a nossa realidade imediata e futura, afetando a natureza e as pessoas ao nosso redor.
Infelizmente, muitos espíritas pretendem se "instruir" e "conhecer" Espiritismo apenas lendo "Romances Espíritas" e não estudam o conjunto da obra de Kardec. Lêm o Livro dos Espíritos, mas não ESTUDAM o Livro dos Espíritos, e pior, não complementam os estudos
aprofundando-se nas demais obras básicas, na Revista Espírita, e nas obras de outros autores aceitos e consagrados. Não utilizam a lógica e a razão, não aprendem, apenas aceitam, apenas informam-se e não transformam sua informação em conhecimento e seu conhecimento em habilidades e aptidões.Desculpe o desabafo. Entendo a sua preocupação e louvo sua busca de argumentos. Quisera que metade dos Espíritas fossem assim. Poderíamos estar cumprindo nossa missão de transformar o mundo.
Espero ter ajudado, se não solucionando sua dúvida, pelo menos fornecendo novos pontos de vista, propiciando argumentos para o debate e a reflexão. Não tive, não tenho e não terei a pretensão ou a ambição de ser o "dono da verdade". Faltam-me inúmeras qualidades e ainda muitas e muitas vidas sucessivas para perto disso chegar. Mas tenho a convicção de que o que coloco está dentro dos postulados trazidos por Kardec, que passa pela prova da lógica e da razão. Com sinceridade, eu acredito nisso.
Um fraterno abraço.
Carlos A. P.Parchen
22/02/2006
c_a_parchen@yahoo.com.br