
PARA NÃO DIZEREM QUE NÃO FALAMOS EM PARADIGMAS
O já saudoso século XX iniciou-se com um exuberante vigor de potências nacionais colonialistas em choque quase permanente de interesses, e findou-se num processo de globalização de proporções inéditas.
Essa globalização se faz sob um paradigma que, em seu aspecto político-social (oceano onde navegam os demais aspectos) é sustentado pela filosofia do pragmatismo e utilitarismo anglo-saxão, estruturada principalmente por Peirce, James e Dewey, manifestada no presente pelo neo-liberalismo, com sua exacerbada valorização do lucro, seus capitais voláteis desequilibrando economias, seu "laisse-faire" ilimitado permitindo tudo, porque há a crença cega de que o mercado tudo regulará selecionando o que for útil. Essa crença e a conseqüente permissividade geraram, para citar apenas um exemplo, o endeusamento das armas de fogo e a violência descontrolada, uma vez que o mercado a controlará quando ocorrer sua exaustão, ou a exaustão da sociedade. Nem é preciso lembrar que tal paradigma foi imposto ao mundo globalizado por uma nação anglo-saxã erigida em maior potência de todos os tempos.
A internacionalização de sistemas de vida nacionais ou regionais transformando-se em verdadeiros paradigmas mundiais, não é novidade. Parece que, politicamente, a história do homem funciona em movimentos alternados de nacionalismos e internacionalismos, como se fossem sístoles e diástoles, ditados por conquistas e expansões. Como exemplo, podemos citar as conquistas de Alexandre e, posteriormente, a dominação do mundo ocidental pelo Império Romano, seguidas ambas pelo surgimento de nacionalidades. A internacionalização, mundialização, ou, no presente momento, a globalização, ocorre quando o sistema de vida de um povo se expande, impondo-se como paradigma para toda a civilização. A História nos mostra que essa expansão coincide com o apogeu da vigência, ou vivência, do tal paradigma, assim como, com o início da gestação, quase imperceptível, do novo paradigma, ou melhor dizendo, das idéias e aspirações que o subsidiarão.
Uma característica evidente nas globalizações (significado estendido aqui a outros períodos quando não existia ainda um "globo terrestre"), é a crença no "fim da história", como se o homem tivesse chegado ao fim de suas conquistas, restando-lhe, doravante, apenas a consolidação destas na eternização da forma de organização social e política conquistada.
Recuando no passado em busca de um precedente de globalização que tenha chegado a essa crença, remontamos ao apogeu do Império Romano, arbitrado aqui no período entre Trajano e Marco Aurélio, detendo-nos mais especificamente no reinado de Adriano, Imperador que introduziu em Roma os mistérios de Antínoo, na tentativa ineficaz de evitar a propagação do Cristianismo, que, em seu entender, e com toda razão, pela sua concepção diferente da vida e da sua estrutura espiritual e moral, ameaçava minar os fundamentos e instituições do império. Se conseguíssemos mergulhar nessa época, quando a pax romana dominava e o Imperador viajava tranqüilamente dispendendo segurança para seus súditos (praticamente todas as pessoas do mundo conhecido), e tentássemos adivinhar o futuro, teríamos dificuldade em prever a estrondosa queda dos valores predominantes e a emersão de um novo paradigma apenas três séculos depois. Mais difícil ainda, seria o exercício de se adivinhar a sustentação do novo paradigma naquela seita supersticiosa, irritante, ameaçadora dos valores espirituais do Império, que se autodenominava "cristã".
Por semelhança de condições histórias, busquemos em nosso tempo uma idéia que tenha os mesmos antagonismos que aquele cristianismo tinha em relação ao sistema vigente, além de características comuns como: rejeição pela sabedoria oficial, propagação como se fosse por virus, penetração pelas camadas mais desconsideradas da população e através de migrações de regiões pobres para o centro do império, parentesco com a superstição, apelo emotivo às massas, adequação à sufocante urbanização, e outras, na tentativa de identificar também aí, um precedente histórico. Com pouca dúvida, ousamos julgar identificar essa idéia no Espiritismo, mais especificamente, o Espiritismo Brasileiro, entendido aqui como uma doutrina que não se enquadra nas especificações paradigmáticas vigentes de ciência, filosofia ou religião, e que foi gerada no Brasil, a partir de uma transformação, segundo alguns sincrética, deflagrada pela publicação das idéias de Allan Kardec. Idéias estas praticamente desaparecidas dos países de vanguarda da cultura ocidental durante os grandes conflitos bélicos do século XX, mas, agora, nesta forma replantada pelas migrações ou pelas viagens de alguns missionários.
Não pretendemos, com esta conversa, defender qualquer forma de expressão ou manifestação particular do Espiritismo, senão apenas identificar, na realidade, características do Espiritismo Brasileiro que, observadas em presença de comportamentos humanos em períodos históricos semelhantes, o credenciem a subsidiar o paradigma sucessor da mundividência e "mundivivência" atualmente predominantes. E a principal características é o desapego, o voluntarismo, a gratuidade do trabalho em benefício dos outros, praticados por seus adeptos, que se contrapõem à cultura dominante que costuma medir o sucesso pelo lucro que gera.
João Alberto
Vendrani Donha
Curitiba, Paraná
maio 2002
Centro Espírita Luz Eterna - CELE
cele@cele.org.br