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Ninguém morre antes da Hora ??? -  Parte III

 

Recebi duas perguntas, via e–mail, sobre dois artigos que publiquei, e para contribuir no debate sobre a questão da "hora da morte", reproduzo abaixo as duas perguntas e a resposta apresentada.

Resposta apresentada:

Não se deve interpretar literalmente e fora de contexto o colocado na questão nº 853 do Livro dos Espíritos (L.E.). Deve ser analisado e considerado que Kardec afirma existir "a hora da morte" e não "uma hora da morte" (a diferença semântica é sutil, mas o conceito muda "da água para o vinho"), e que fica muito claro nas Obras Básicas como um todo, que não existe uma data e hora da morte pré-determinada. E isso é peremptório na Doutrina Espírita. Constata-se isso estudando Kardec com cuidado, e não apenas "lendo Kardec".

Em não existindo uma hora da morte pré-determinada, como alguém poderia morrer antes da hora??? É nesse sentido e nessa contextualização que se insere a afirmação da questão nº 853 do L.E. de que ninguém morre "antes da hora", o que é evidente, já que não existe uma hora marcada para morrer.

Se existisse data e hora (e forma) marcada para a morte, não existiria o livre-arbítrio, pois tudo seria determinístico e nós, encarnados, meros fantoches da espiritualidade ou da "vontade divina". Ao reencarnarmos, trazemos conosco um "patrimônio" genético-perispiritual que nos estabelece um potencial de vida teórico de X anos. Assim sendo, podemos morrer "antes da hora", no sentido estrito de não termos atingido a nossa idade potencial. E isso pode se dar em virtude de nossos abusos e imperfeições ou ainda, da ação de terceiros.

Posso afirmar que o que coloco nos dois artigos sobre esse assunto no meu site (www.carlosparchen.net), é o que a Doutrina Espírita traz, em termos filosóficos e científicos, a respeito da morte e do livre arbítrio, pois este (o livre arbítrio) é inviolável, e não existe programação determinística de vida, apenas tendências reencarnatórias, que são completamente mutáveis pelo uso de nosso livre arbítrio ou pelo uso do livre-arbítrio por terceiros (um assassino, por exemplo).

Os desencarnes coletivos (por exemplo, o causado pelo avião que caiu e matou várias dezenas de pessoas) não são programados, e as pessoas atingidas não estavam destinadas (ou condenadas) a morrer daquela maneira. Foi o uso do livre-arbítrio de terceiros, que não cumpriram adequadamente com suas funções e obrigações, que causou a morte daquelas pessoas, que assim sendo, "morreram antes da hora", se considerarmos o potencial genético-perispiritual de tempo de vida, a que já nos referimos, que não foi atingido pelos que desencarnaram.

Se assim não for, não existe o livre arbítrio, e os assassinos não teriam culpa, pois apenas executariam as "ações divinas" (os assassinados teriam nascidos para serem mortos e os assassinos nascidos para matarem). E os espíritos superiores também seriam assassinos, pois teriam que levar pessoas para morrerem, assim como se leva o gado para o matadouro. E seria assim mesmo. Já imaginou reunir 187 pessoas para serem mortas num acidente de avião? Isso não é ser "gado"? Isso é concebível? E a "logística" para isso? Só se todos nós formos marionetes.

Nesse exemplo, como existiriam no avião, em tese, pessoas que "não precisariam desencarnar", não poderia a espiritualidade impedir um acidente desses? Não, isso não seria possível, pois se o fizessem estariam violando o livre-arbítrio e este, verdadeiramente, é inviolável, pois faz parte da Justiça e da Perfeição Divina, que nos dá o direito de sermos, como tão bem lembrou Jesus, "deuses" (qual o poder de um "deus"???).

Muitos não querem aceitar isso, pois é muito cômodo responsabilizar o destino e a programação reencarnatória por tudo o que acontece de ruim. Muitos espíritas querem que a espiritualidade, a "vontade divina" e o destino sejam responsáveis por fatos, atos e coisas que são de inteira, única e exclusiva responsabilidade individual e/ou coletiva, incluso aí a forma e a hora da morte, nossa ou de terceiros, em via de mão dupla.

Não se deve ficar surpreso por muitos espíritas não aceitarem, nessa questão da "hora da morte", que ela é decorrente da responsabilidade individual e/ou coletiva; infelizmente, a maioria não estuda Kardec de forma profunda e sistemática, apenas lêem e usam frases soltas, retiradas das obras básicas, como se verdade fossem, sem entender a contextualização (inclusive da época, do povo e da linguagem), sem interpretar filosoficamente obras que são filosóficas, e sem avaliar cientificamente obras de base científica, que são as Obras Básicas da Codificação.

Sem pretender ser o "dono da verdade", mas apenas manifestando um ponto de vista pessoal, e respeitando as opiniões em contrário, acredito sim, baseado no estudo e numa interpretação rigorosamente "Kardecista" das Obras Básicas do Espiritismo, que não existe uma hora determinada para se morrer. Se assim não fosse, não existiria o livre-arbítrio, e o Espiritismo teria perdido uma de suas pedras basilares.

 

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Autor: Carlos Augusto Parchen

e-mail: c_a_parchen@yahoo.com.br

fonte : www.carlosparchen.net

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