
Não Foi no Centro
Se você
indagar de qualquer pessoa que exerça a função de caixa num supermercado, farmácia,
padaria, etc. sobre onde aprendeu o procedimento de registrar a compra do cliente e sua
quitação com dinheiro vivo, cartão de crédito ou cheque, cada modalidade com suas
características próprias de encaminhamento e processamento, ele não dirá que foi na
escola, mas sim na própria rotina de trabalho, através de alguém que lhe repassou o
conhecimento.
O mesmo exemplo pode ser ampliado
para outras práticas profissionais, onde o aprendizado ocorre na própria prática da
atividade.
O mesmo raciocínio ocorre na
prática espírita nas instituições. Sempre houve alguém que repassou o conhecimento,
orientou e encaminhou, com sua experiência, alguém que inicia e começa a trabalhar na
seara espírita. Essa transmissão de conhecimento, todavia, está sujeita aos
condicionamentos, vícios e ponto de vista alcançado na compreensão dos postulados do
Espiritismo.
Assim como a escola deveria
possuir estrutura para transmitir a experiência da preparação profissional, ao invés
de deter-se apenas na transmissão do conhecimento (nem sempre devidamente assimilada), as
instituições espíritas possuem objetivos definidos e claros de serem construtores e
geradores do conhecimento, mas nem sempre esta é a realidade que se apresenta. Muitas
vezes, limita-se à transmissão de informações com base em pontos de vista pessoais,
sempre sujeitos aos equívocos de entendimento, vícios e condicionamentos a que todos,
alunos em aprendizado que somos, estamos sujeitos.
Por esta razão surgem as
deturpações e práticas incoerentes, frutos diretos da inexata compreensão do
Espiritismo, de seus fundamentos e objetivos, misturando-se misticismos, hábitos
estranhos à Doutrina Espírita , disputas, vaidades e seus conseqüentes desdobramentos.
Embora pareça paradoxal,
referidas crises existentes nas instituições são naturais e benéficas porque elas
proporcionam crescimento a aprendizado, levando à busca dos verdadeiros parâmetros. Mas
é fato real que muitas afirmações e práticas não foram transmitidas no centro
espírita, embora sua tribuna e estrutura possivelmente tenham sido utilizadas. Foram
transmitidas na ausência do conhecimento, através de nossos equívocos de entendimento.
A construção do conhecimento
solicita debates, questionamentos, troca de informações, análise ponderada de
conceitos, dispensa de preconceitos, entendimento correto de palavras, parágrafos,
gramática e mesmo, é óbvio, a exata compreensão do Espiritismo e seus fundamentos.
Referidos conhecimentos, para serem adquiridos e assimilados, e, portanto, construídos
interiormente, requerem firmeza e perseverança dos grupos e seus integrantes, pois a mera
transmissão de informações assemelha-se a alguém que abrisse o próprio cérebro e
colocasse sua massa cerebral para distribuir...
Vejamos, todavia, com bons olhos,
esse conflito e aparente disparate na diversidade de entendimento e práticas. Isso é
salutar. Faz-nos pensar, convida à reflexão e oferece a multiplicidade das experiências
para que igualmente sejam analisadas.
Mas, há que se ater ao momento
aflitivo com que se depara a humanidade. O instante presente solicita que Menos competição e mais cooperação, deve ser a
preocupação de todos espíritas sinceros, a fim de transferir a Doutrina para as futuras
gerações, conforme a receberam do Codificador e dos seus iluminados trabalhadores das
primeiras horas, como acentua o Espírito Vianna de Carvalho e outros
Espíritos-espíritas, na oportuna mensagem Campeonato
da insensatez, publicada pela revista Reformador,
páginas
É que, acentua o Espírito:
Estais comprometidos, desde antes da
reencarnação, com o Espiritismo que agora conheceis e vos fascina a mente e o coração.
Tende cuidado! Evitai conspurcá-la com atitudes antagônicas aos seus ensinamentos e
imposições não compatíveis com o seu corpo doutrinário. Retornar às bases e
vivê-las qual o fizeram Allan Kardec e todos aqueles que o seguiram desde o primeiro
momento, é dever de todo espírita que travou contato com a Terceira Revelação
judaico-cristã porque o tempo urge e a hora é esta, sem lugar para o campeonato da
insensatez.
Pois (e vale muito transcrever
mais este parágrafo), continua o Espírito: Não
se dispõe de tempo (...) para a assistência aos sofredores e necessitados que aportam
às casas espíritas, relegados a segundo plano, nem para a convivência com os pobres e
desconhecedores da Doutrina, que são encaminhados a cursos, quando necessitam de uma
palavra de conforto moral urgente... Os corações enregelam-se e a fraternidade
desaparece.
Não é, pois, no centro que
surgem tais dificuldades. É dentro de nós mesmos, espíritos-espíritas, encarnados
mesmo (embora integrantes das instituições), necessitados todos da autêntica
compreensão dos autênticos objetivos do Espiritismo, que não são outros senão como
indicado no item 292 de O Livro dos Médiuns:
Não esqueçais que o fim essencial,
exclusivo, do Espiritismo é a vossa melhora...
Tratemos, pois, com a máxima
urgência, de nos adequarmos ao Espiritismo e não tentar adequar o Espiritismo ao nosso
estreito, limitado e imperfeito ponto de vista pessoal, nem sempre coerente com o
autêntico conhecimento à nossa disposição.
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Autor:
Orson Peter Carrara
orsonpeter@yahoo.com.br
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