O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

Em 9 de agosto de 1863, Kardec dirigiu ao Espírito que se manifestava através do médium D´ A..., perguntas a respeito da obra que estava preparando, em relação à qual guardava segredo, especialmente quanto ao título – Imitação do Evangelho – que Didier, o editor, só veio a conhecê-lo quando foi imprimi-la.
À pergunta sobre o que o Espírito pensava dessa nova obra, Kardec recebeu uma resposta reveladora, que jamais poderia ser o resultado de idéias preconcebidas do médium, pois este tudo ignorava, devido ao sigilo mantido.
A influência do livro, escreveu o Espírito através da psicografia, seria considerável, porque eram focalizadas questões de capital importância, de alta moral, não só para o mundo religioso, como também para a "vida prática das nações".
A dúvida precisava ser destruída, a Terra e a sua população civilizada estavam preparadas para isso.
Há longo tempo, continuou informando a entidade espiritual, os amigos do espaço estavam programando essa obra e era necessário que Kardec plantasse as sementes que lhe tinham sido confiadas, porque era tempo de fazer "a Terra gravitar na ordem radiante das esferas, sair da penumbra e do nevoeiro que obscurecesse as inteligências".
Afirmou que Kardec experimentaria oposição cerrada da religião dominante mas, apesar disso, deveria revelar abertamente o que é o Espiritismo, mostrando, a todos, que nele se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo. Encerrou sua mensagem, dizendo que Kardec poderia contar não só com o apoio dele e dos Espíritos amigos mas, principalmente, com o do Grande Espírito do Mestre, que o protegia de modo muito particular.

EM SAINTE-ADRESSE

Em setembro desse mesmo ano, refugiado em Sainte-Adresse a fim de concluir o livro, Kardec solicitou ao mesmo médium uma mensagem dos Espíritos, pois havia modificado completamente o plano inicial.
Conforme afirmativa do próprio Kardec, o médium desconhecia esse fato.
A comunicação foi enviada de Paris, para o seu retiro, com data do dia quatorze.
Nela o Espírito informava que a modificação feita estava de acordo com os seus "conselhos ocultos" e que o seu afastamento de Paris, havia sido necessário, pois a obra, que juntos elaboravam, requeria isolamento e o mais completo recolhimento.
Com ela o "edifício" começava a destacar-se e já se podia entrever a sua "cúpula", desenhando-se no horizonte.
Incentivou Kardec a prosseguir sem impaciência e sem fadiga, porque o "monumento" seria concluído a seu tempo.
As palavras de despedida, ao final da mensagem, merecem ser reproduzidas: "Adeus, caro companheiro de outrora, fiel discípulo da verdade vai continuando nessa vida a obra que outrora, juramos, nas mãos do Grande Espírito, que te ama e eu venero, consagrar, as nossas forças e existências até concluí-la. Eu te saúdo".
No mês de abril de 1864 surgia a primeira edição da Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, título este mais tarde modificado para O Evangelho Segundo O Espiritismo. Kardec fez essa alteração, baseando-se nas observações do editor, Didier, e de outros companheiros, estudiosos da Doutrina. O fato revela inegavelmente, o espírito aberto do Codificador às sugestões procedentes.

A REVISTA ESPÍRITA NOTICIA

No primeiro artigo da Revista Espírita de abril de 1864, Kardec noticiou que o livro estaria à venda.
Abstendo-se de qualquer comentário, limitou-se a transcrever da introdução, a parte que define o seu conteúdo e objetivo. As matérias contidas nos Evangelhos, segundo ele, podem ser divididas em quatro partes: 1) os atos comuns da vida do Cristo; 2) os milagres; 3) as predições; 4) o ensino moral.
Em edição posterior, ele ampliou essa divisão para cinco partes, colocando em quarto lugar os trechos que serviram à Igreja para o estabelecimento de seus dogmas, e em quinto, o ensino moral.
O ensino moral, o código divino como Kardec o denomina, "é o terreno onde todos os outros podem encontrar-se, a bandeira sob a qual todos podem abrigar-se, sejam quais forem suas crenças, pois jamais foi assunto de disputas religiosas".
A parte moral "exige a reforma de si mesmo" escreveu Kardec na Introdução.
Como decorrência o conteúdo do livro torna-se uma regra de conduta que abrange todas as circunstâncias da vida particular ou pública, o princípio de todas as relações sociais baseadas na mais rigorosa justiça".
"É esta parte", escreveu Kardec, "o objetivo exclusivo desta obra".
É importante destacar, ainda, que o prefácio é uma mensagem do Espírito de Verdade, que resume o verdadeiro caráter do Espiritismo.

PRECES DA MANHÃ E DA NOITE

Eis um fato que merece ser mencionado. Na Revista Espírita de agosto de 1864, Kardec respondeu a vários assinantes que lamentavam o fato de não terem encontrado, na coletânea de preces do Imitação do Evangelho, uma especial para a manhã e outra para a noite!
A resposta do Codificador é altamente instrutiva: agira propositadamente para tirar da obra o caráter litúrgico, limitando-se a publicar aquelas que tinham uma relação mais direta com o Espiritismo. Complementando, afirmou que considerava a Oração Dominical, a melhor prece matinal e da noite e destacou "pronunciada com o coração e não com os lábios".

NOTÍCIA BIBLIOGRÁFICA

Na Revista Espírita de novembro de 1865, Kardec informou aos leitores que estava "no prelo para aparecer em poucos dias" a terceira edição do Evangelho Segundo o Espiritismo.
São suas as palavras transcritas a seguir:
"Esta edição foi objeto de um remanejamento completo da obra. Além de algumas adições, as principais alterações consistem numa classificação mais metódica, mais clara e mais cômoda das matérias o que torna sua leitura e as buscas mais fáceis".
A FEB – Federação Espírita Brasileira – publicou em 1944 a tradução dessa terceira edição francesa. Encarregou-se dela Guillon Ribeiro, então presidente da Instituição.
Engenheiro, jornalista, poliglota e profundo estudioso da língua portuguesa, Guillon Ribeiro foi elogiado por Rui Barbosa, em discurso pronunciado no Senado em 14 de outubro de 1903, pelo seu trabalho de revisão do projeto do Código Civil, por ele elaborado.
O fato foi citado pela editora, quando da publicação da primeira edição brasileira com o objetivo de evidenciar a qualidade das traduções das obras de Kardec consideradas pela FEB como "impecáveis".
Em 1961 a FEB publicou um livro psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira, intitulado o Espírito da Verdade, contendo estudos e dissertações em torno do Evangelho segundo o Espiritismo.
Na introdução, assinada pelos vários Espíritos que a escreveram, entre eles Emmanuel, Bezerra de Menezes, André Luiz, Meimei, o Evangelho Segundo o Espiritismo é definido como "a mensagem libertadora de Allan Kardec", definição esta que exprime a importância da obra para aqueles que buscam, realmente, transformar em luz a obscuridade do seu mundo interior.


Autora: Nair de Moraes, presidente da Seara Bendita Instituição Espiríta.

 

Voltar