Sobre a Espiritualidade

Acho muito difícil falar sobre este tema, "espiritualidade" não que ele seja difícil. É que sei que as pessoas já vem com muitas idéias sobre o que seja isto... por isso, pra início de conversa, seria bom que vocês invocassem imagens que representas sem tal coisa, tal como ela existe dentro de vocês.  Não, não estou pedindo que vocês falem sobre espiritualidade.  Não estou pedindo que vocês me expliquem o que ela quer dizer.  Quero que vocês tomem contato com imagens...

Imagem: forma, contorno, gosto, cheiro, tato ...

Está difícil?  Então tentemos outro joguinho.  A que coisas ou pessoas vocês aplicariam este nome, de espiritual?   Parem aqui, não continuem a leitura, por favor. É preciso, antes de mais nada, mineirar nas próprias minas investigando nossas profundezas, ver o que está lá ...

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Agora eu vou dizer as minhas imagens.

Primeiro, o vento.  Em hebraico, espírito e vento são a mesma palavra.  Vento me diz de algo indomável, incontrolável.  Lá no Gênesis 1, 2, quando se descreve o caos primitivo, está dito que o vento de Deus (espírito') pairava sobre as águas.  Não pense sobre o vento.  Este é um exercício que deve ser aprendido: deixar de pensar para permitir que as imagens apareçam. É assim que surge a inspiração poética.  E em Gn 2, 7 diz que passamos a ser seres humanos quando Deus soprou o vento da vida ... E leia Ezequiel 37, 1: Ele (Deus) me levou no seu vento... E o texto clássico de Jesus, na conversa com Nicodemos: "O vento sopra onde quer..." Por favor, é importante não pensar literalmente.   Estas são metáforas poéticas.  Trate de começar a voar nas costas do vento para entender o que espiritualidade significa.  Vento me faz lembrar liberdade, espaços vazios, ausência de forma.  Voar: quando penso em espírito me sinto parecido com uma pipa (ou papagaio, ou pandorga ... ),flutuando.  Ou como uma nuvem ...

Aí seria bom pensar nas coisas que nos fazem voar e nas coisas que nos tornam pesados como pedras.

Há pessoas que nos fazem voar. A gente se encontra com elas e leva um bruta susto.  Primeiro, porque o vento começa a soprar dentro da gente, e lá de cantos escondidos de nossas montanhas e florestas internas, aves selvagens começam a bater asas, e a gente não sabia que tais entidades mágicas moravam dentro de nós, e elas nos surpreendem, nós nos descobrimos mais selvagens, mais bonitos, mais leves, com uma vontade incrível subir até as alturas, saltando, saltando de penhascos, pendurados numa asa delta (acho que o nome disto é fé).  Outras, ao contrário nos fazem pesados e graves, pés fincados no chão, sem leveza, incapazes de dança.  Quanto mais a gente convive com elas, mais pesados ficamos, até que nos transformamos em pedras ou em sepúlcros, incapazes de nos mover. A morte é sempre estática, dura.  Por oposição à vida que flutua ao sabor do vento como sementes de paina.

O vôo implica riscos.  Para se voar em asa delta é necessário um ato louco de riscos.  Quem quiser ficar com os pés no chão, em segurança, nunca levantará vão.  Claro, tem medo.  E o medo está relacionado com a morte e a gravidade.  O medo nos faz afundar ... Nietzche disse, certa vez, que se encontrou com o seu demônio e ele lhe pareceu grave e pesado.  E acrescentou: Eu só poderia acreditar num Deus que pudesse dançar.  Eu acrescento: num Deus Vento.  Porque se há uma coisa que o vento faz é dançar ...

Aqui vocês tem que parar de novo, para ver (por favor, levem isto a sério, é ver mesmo).  Evitem a conversa abstrata.  Tenham coragem para ver as imagens que surgem dentro de vocês.  E vejam o que nos torna pesados.  A primeira coisa a investigar é se vocês querem mesmo voar. É altamente duvidoso.  Muito poucas pessoas querem isso.  Voar significa abandonar as certezas e não ha nada que nos atemorize mais.  Preferimos sempre uma vida chata e segura a uma vida excitante e arriscada.  Liberdade é coisa muito doida e doída. Nos Irmãos Karamazov, de Dostoievski, há um diálogo entre o Grande Inquisidor e Cristo em que o Inquisidor diz a Cristo: "-Tu erraste prometendo a liberdade às pessoas. Porque ninguém deseja ser livre: "Ah, você acha que isto é papo furado? Vai aí o teste. A primeira indicação de nossa vocação para a liberdade é o desejo de que os outros também sejam livres. O que quer dizer, liberdade para andarem em seus próprios caminhos. Ficarem livres de mim...

Mas para isto é preciso que eu não pretenda ter a verdade.  Todas as pessoas que pretendem ter a verdade não podem permitir a verdade do outro. É claro.  Se eu tenho a verdade, qualquer pensamento de outra pessoa só pode ser um erro.  E por que razão neste mundo deveria eu permitir que o erro continue?  Todas as pessoas que pretendem possuir a verdade tendem a se tornar inquisidoras, estão condenadas a se tornar inquisidoras.  Elas tem horror ao vento.   Tratam de engarrafá-lo.  Não é isso que as pessoas religiosas, de professoras de escola dominical até o Santo Ofício, fazem?  Isto para não dizermos das formas secularizadas de religião, sejam partidos políticos (o horror à dissidência) movimentos terapêuticos e ideologias...

Há os medos pessoais.  Resumindo a nossa condição, podemos dizer que somos uma combinação de ansiedades e de defesas contra as mesmas.  A defesa assume as mais variadas formas: desde o falatório sem parar (tanto de sermões de cultos e de relações pessoais até as certezas dogmáticas ou o cerebralismo).  O falatório impede que haja silêncio e evita o aparecimento das imagens selvagens que residem nele.  Ele (o falatório) nos defende de nossa própria verdade (que não conhecemos e não queremos conhecer).  As certezas dogmáticas paralizam a vida e congelam tudo.  Tudo fica solidificado e morto.  Assim somos libertados da angústia de nos movimentarmos internamente.  E o cerebralismo nos defende do contacto com nossas próprias emoções.

Há palavras que nos fazem voar.  Tentei dizer alguma coisa sobre isto no primeiro capítulo do livrinho: "Poesia-Profecia-Magia."

Palavras que nos fazem voar: a Poesia. O discurso científico trata de dizer o mundo como ele é, sob o ponto de vista de sua possibilidade.   Aquilo a que normalmente damos o nome de realidade é apenas uma possibilidade, entre muitas outras. É bom não se esquecer nunca do Guimarães Rosa: "Tudo é real porque tudo é inventado." Não entendeu? Pois trate de prestar atenção à imagens que esta afirmação lhe provoca ... Já o discurso poético não quer dizer este mundo "real"(?) Ele diz o mundo sob o ponto de vista do desejo, aquilo que falta nele.   Isto pode parecer muito estranho.  Mas você teria que pensar seus próprios pensamentos. É isto que nos diferencia dos animais.  Os animais vivem em meio às presenças Mas nós vivemos em meio as ausências.  Desejo: reconhecer que algo esta faltando.  Saudade.  Eu sugeriria que espiritualidade tem algo a ver com isto: viver em meio a presença de um ausência.  E dai que surge tudo o que de belo fazemos: o amor, a poesia, a música, os jardins, as revoluções... Tudo.  Fazemos estas coisas para completar este pedaço que está faltando. Ah, pedaço de mim que me arrancaram... Sou espiritual por causa disto: do meu corpo sai uma canção, um suspiro, um desejo, uma saudade por algo que não encontro e penso que sinto no vento, o cheiro dessas coisas...

Desejo: somos espirituais por causa do desejo.

O desejo aponta para aquilo que está ausente.

E nós, seres estranhos, somos capazes de viver por causa desta ausência.

Não, não é o desejo de uma casa, de uma namorada, de um automóvel ou de outra coisa qualquer ... é aquela tristeza que permanece mesmo quando todas estas coisas pequenas estão satisfeitas.  Nós somos, incuravelmente, pranteadores de algo que se perdeu... e que desejamos reencontrar no futuro.  Mas para isso é preciso saber o nome do desejo.

Acontece que somos banais.  E quando tratamos de falar no nome do nosso Desejo - este grande desejo, nome sagrado, falamos depressa demais, sem nos darmos conta de que não sabemos o seu nome... O Desejo é como o nome de Deus; os Hebreus não podiam pronunciá-lo e por isso mesmo se esqueceram dele.   Se soubéssemos disto falaríamos menos em nossas orações, porque compreenderíamos que a falação é embrulhação.  É preciso descobrir o nome do nosso grande desejo, aquele, por cuja causa, abandonaríamos tudo, aquele que nos faria bem-aventurados.  Mas isto requer trabalho, muito silêncio, muita escuta, muita sinceridade, desaprender a conversar blá-blá-blá.  Aprender a fala poética em que cada palavra é indispensável.

Dizer o nome do nosso grande desejo é orar. É só isto que é orar. O resto é blasfêmia.

Espiritualidade: a busca desse desejo de vida, Desejo perdido, que nos libertaria dos desejos de morte que nos petrificam...

É preciso voar...

Autor: Rubem Alves

 

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