O Espiritismo é uma Religião ?
ESPIRITISMO É UMA RELIGIAO?
Este é o tema de um dos mais belos textos deixados
por Allan Kardec no século passado.
O Codificador prevendo os rumos que o espiritismo
tenderia no futuro já se preocupou em avançar no assunto Religião e Espiritismo.
Esse trabalho foi proferido por Kardec em discurso
de abertura da Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, da Sociedade de Paris no dia 1.de
novembro de 1868. E importante observar o forte enfoque que ele faz da expressão
"comunhão de pensamentos", utilizando-a como ponto central de seu discurso.
O homem em sua saga evolutiva necessita viver em
sociedade e, portanto, todos nos dependemos de alguma forma uns dos outros.
Kardec fala do poder da união de pensamentos capaz
de gerar reações extraordinárias de efeitos morais e físicos. Ao imaginarmos o
Espírito fora do corpo material, concluímos que o pensamento é sua característica
inata e essencial, marcando a individualidade do ser humano. O Espírito não poderia
existir sem o pensamento. É praticamente impossível ao homem viver em total isolamento e
ele possui no seu intimo a necessidade da convivência em comunidade.
O espiritismo vem nos esclarecer a verdadeira
importância da comunhão de pensamentos. Ao isolarmos e emitir palavras pelo pensamento
estamos também promovendo uma reunião com outros pensamentos
Provavelmente, ele deve possuir maior afinidade com
outras pessoas que não estão encarnadas ao seu redor. Da comunhão de pensamentos surgem
as mais diversas sensações (efeitos) que podemos sentir em nossa caminhada eterna
evolutiva.
Unidos a uma comunidade de pensamentos benéficos e
positivos receberemos fluidos agradáveis e gratificantes e, inversamente, obteremos a
desarmonia e suas conseqüências negativas.
Kardec ressalta que as Religiões são formadas com
base na comunhão de pensamentos, mas cada uma segue os requisitivos que lhe confim para
manter sua estrutura.
Muitas persistem por longo tempo, outras surgem e
extinguem-se rapidamente. Como fato inevitável, não se pode parar a evolução do
Espírito, ou seja, a evolução do pensamento.
Com o tempo tudo passa por transformação para
melhor, não havendo retrocesso, caso contrario, não haveria evolução no sentido amplo
da palavra. Sempre nesse caminho, as transformações são seguidas de fases de
adaptação.
As religiões como instituições organizadas,
talvez sejam, as mais sujeitas as adaptações evolutivas em virtude do forte exercício
da comunhão de pensamentos da comunidade a que estão sujeitas. As transformações são
mais rápidas quanto mais evoluída for a comunidade.
Dado a isso, surgiu a Doutrina Espírita, como
fonte renovadora da união de pensamentos na Terra para o bem comum. Vamos a um trecho do
discurso: "...Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam,
são fundadas na comunhão de pensamentos; e ai, com efeito, que esta deve e pode exercer
toda a sua forca, porque o objetivo deve ser o desprendimento do pensamento das garras da
matéria. Infelizmente, em sua maioria, afastam-se desse principio, a medida que fazem da
religião uma questão de forma.
Disso resulta que cada um, fazendo consistir seu
dever na realização da forma, julga-se quite com Deus e com os homens, quando haja
praticado a forma.
Resulta ainda que cada um vai aos lugares de
reuniões religiosas com um pensamento pessoal, de seu próprio interesse e o mais das
vezes sem nenhum sentimento de fraternidade em relação aos outros assistentes; fica
isolado no meio da multidão, e não pensa no céu senão para si mesmo...".
..."Se as assembléias religiosas -
falamos em geral, sem fazer alusão a culto algum - muitas vezes se tem desviado do alvo
primitivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se o ensino que nelas e
dado não tem seguido sempre o movimento progressivo da Humanidade, e porque os homens
não realizam todos os progressos há um tempo; o que eles não fazem em um período,
fazem em outro; a medida que se esclarecem, eles vêem as lacunas que existem em suas
instituições e as preenchem; compreendem que o que era bom em uma época, de acordo com
o grau de civilização, se torna insuficiente em um estado mais adiantado e restabelecem
o nível.
O espiritismo, nos sabemos, e a grande alavanca do
progresso em todas as coisas; ele marca uma era de renovação. Saibamos pois, aguardar o
porvir, e não pecamos a uma época mais do que ela pode dar.
Como as plantas as idéias precisam amadurecer para
que se lhes possam colher os frutos. Saibamos, alem disso, fazer as necessárias
concessões as épocas de transição, porque nada na Natureza se opera de maneira brusca
e instantânea..."
A revelação da existência do plano espiritual e
da sua comunicação com o nosso plano terreno, abriu definitivamente, uma nova realidade
filosófica e religiosa no planeta. Com base na ciência espírita, capaz de trazer um
novo horizonte na relação da vida, conceitos e dogmas errôneos, muitos deles devido a
interpretações e traduções incoerentes e egoístas de Livros Sagrados, foram
desmantelados e vão ficar apenas como parte da historia da humanidade.
O aspecto cientifico do espiritismo é primordial e
essencial para o conhecimento da vida e adiantamento da humanidade. Com ele, a fé cega é
substituída pela fé inabalável, sólida, com base na razão e com isso há ampliação
da Verdade para o homem, pois o pensamento tem o poder de ir muito alem do que a ciência
pode comprovar num determinado tempo.
No caminhar da própria ciência a comunhão de
pensamentos é também essencial. As reuniões cientificas, as grandes discussões, etc.
fazem parte dos conhecimentos disponíveis ao homem, tanto do aspecto material como no
aspecto moral, ou seja, no comportamento humano no desenvolvimento da vida.
Kardec prossegue: "... Se assim é, dirão, o
Espiritismo então é uma religião? - Perfeitamente! sem duvida; no sentido filosófico,
o Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso, porque ele é a doutrina que
funda os laços de fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples
convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as leis da própria Natureza. Porque então
declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Por isso que só temos uma palavra
para exprimir duas idéias diferentes e que na opinião geral, a palavra religião é
inseparável da de culto: revela exclusivamente uma idéia de forma, e o Espiritismo não
é isso.
Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o
publico só veria nele uma nova edição, uma variante, se assim nos quisermos expressar,
dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu cortejo de
hierarquias, de cerimônias e de privilégios; o publico não o separaria das idéias de
misticismo e dos abusos, contra os quais sua opinião tem-se elevado tantas vezes.
Não possuindo nenhum dos caracteres de uma
religião, na acepção usual da palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se
com um titulo sobre o valor do qual inevitavelmente se estabeleceria a incompreensão; eis
porque ele se diz simplesmente: doutrina filosófica e moral..."
Desse texto, também extraímos o que chamamos de
Credo do Espiritismo, que resume com grande clareza e objetivo a Doutrina Espírita e que
está disponível no FAQ da home page do GEAE.
No livro "O que é o Espiritismo" Kardec
define-o assim: "O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma
doutrina filosófica. Como ciência pratica, ele consiste nas relações que se podem
estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências
morais que decorrem dessas relações". É interessante notarmos que tal definição
e pormenorizada nesse texto, ampliando o seu entendimento.
Observamos a preocupação do Codificador com a
conotação que se poderia, no futuro, fazer do Espiritismo como aspecto religioso. A
Doutrina Espírita como elo de união de pensamentos em torno da solidariedade e
fraternidade universal, promovendo a evolução moral dos indivíduos, acha-se
perfeitamente enquadrado na palavra Religião.
Devemos reconhecer, entretanto, que entre as
Religiões como Instituições existentes atualmente na Terra, o Espiritismo não se
define. Há muito que se evoluir na Terra, não só em termos de Religião como em geral,
para que o Espiritismo possa a ter uma definição mais adequada ao que ele de fato e,
longe dos padrões religiosos que conhecemos hoje, e isso, certamente, aconterá.
Devido ainda a nossa ignorância de conhecimento da
grandeza da Vida, parece que o Espiritismo é algo palpável, rígido, fixo e com regras
definidas. Na realidade, a Doutrina Espírita é infinita e eterna pois tudo o que estiver
ao alcance do Homem no conhecimento da Vida faz parte do seu principio básico maior, que
é o uso da RAZAO em comunhão de pensamento. Basta darmos tempo ao tempo para ele se
adequar a nova era do nosso planeta.
As diversas visões que surgem do Espiritismo são
próprias da sua evolução, tendo em vista se tratar de uma doutrina progressista.
Devemos trabalhar com seriedade e humildade para
compreendê-lo adequadamente no tempo em que se encontra, evitando pensamentos egoístas e
vaidosos que são vícios do fanatismo, colocando-o a serviço do bem comum. Para isso, a
unificação como movimento organizacional e a mais completa forma de se promover uma
ampla e positiva comunhão de pensamentos.
Autor: Raul Franzolin Neto
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Referências:
ALLAN KARDEC. O Espiritismo é uma religião?
Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, dezembro de 1968, EDICEL, p.351-360
ALLAN KARDEC. É o Espiritismo uma Religião?
Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, dezembro de 1968, O Reformador, v.94,
n.1764, p. 22-26, 1976.
ALLAN KARDEC. O que é o Espiritismo, IDE,
223p.1994.
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C O M E N T A R I O S DO JOSE PEDRO SOBRE
ESPIRITISMO E RELIGIAO
Queridos amigos, que a paz esteja com todos.
Em resposta a tese levantada pelo amigo Milton,
digo: Allan Kardec disse que o Espiritismo não é uma religião, pois as religiões
existentes ao momento eram, em sua maioria, dogmáticas e em nada levavam em conta a
razão.
Por isso, o codificador registrou-a como Doutrina,
pois não levavam os outros a fé cega. Os espíritos colocaram Jesus como modelo Maximo
de perfeição que já passou pela Terra.
Tanto por isso Allan Kardec coloca Moises, O Cristo
e o espiritismo como 1a., 2a. e 3as. revelações de Deus aos homens. A idéia de
espiritismo cristão se da no momento em que se toma esse modelo para exemplificar toda a
moral ensinada pelos espíritos.
Mas, como diz Kardec o verdadeiro espírita é
aquele que estuda e pratica a moral ensinada pelos espíritos. Portanto, Jesus é o modelo
maior, mas existem Maomé, Buda, Gandhi, Sócrates, dentre muitos que, em menor escala,
também vieram representar essa moral, que é universal.
Por isso, não é preciso uma discussão sobre se o
espiritismo é cristão ou não, ele é, dentre as outras coisas, uma moral muito bem
exemplificada pelo cristo e por seus representantes.
Só não é valido pegar as praticas exteriores de
quaisquer cultos que se formaram em torno desses grandes espíritos, e juntar com o
espiritismo. O que se deve fazer é, pegar a moral ensinada por todos os praticantes de
cada culto, passa-las ao crivo da razão, tirar apenas as coisas boas, e junta-las aos
ensinamentos dos espíritos.
Isso foi o que foi feito com o cristianismo, por
Allan Kardec, por ser o Cristo o modelo maior e com um numero maior de seguidores. Peco,
então, que não haja contendas por meio de palavras. A moral é universal, e não só do
Cristo.
Nesse ponto eu concordo com o Milton que o
espiritismo não precisa de adjetivos, ele por si só, é. Ele abrange todas as BOAS
partes da moral de cada religião, para ser a única.
Não ha portanto uma ruptura com o cristianismo e
sim um agregamento, pois uma ruptura seria deixar de fora enquanto um agregamento é unir
a todos, com a verdadeira moral, o conhecimento, e rumar, sem distinção de seita, para a
perfeição, que é o destino de todos. Obrigados, que Deus abençoe a todos.
Autor: Jose Pedro Bastos Cavalero Filho
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DO LUIZ OTAVIO SOBRE ESPIRITISMO E RELIGIAO
Caros confrades.
Foi com um misto de surpresa e satisfação que li
o artigo do confrade Milton Medran Moreira.
Ele toca num ponto de vital importância, que é o
caráter universal da Doutrina. Para ser universal ela realmente, no meu entender, tem que
estar acima dos adjetivos religiosos.
Desde alguns anos venho pensando na necessidade de
serem escritos "O Alcorão Segundo o Espiritismo", "A Torah Segundo o
Espiritismo", "O Evangelho de Buda Segundo o Espiritismo" e assim por
diante.
Certamente Kardec escreveu "O Evangelho
Segundo o Espiritismo" pelo simples fato de estar imerso numa sociedade crista, mas
se estivesse na China teria escrito uma obra equivalente mas adaptada a filosofia reinante
naquele pais.
Creio que esse debate é um ponto alto na historia do Boletim.
Autor: Luiz Otavio Saraiva Ferreira
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DA ELISANE SOBRE ESPIRITISMO E CRISTIANISMO
Caros companheiros.
Tenho acompanhado a discussão sobre cristianismo e
espiritismo, e a princípio havia achado melhor não fazer nenhum comentário, pois ficar
procurando justificativas ou não para a utilização dos termos "cristãos" e
"religião" no que se refere ao espiritismo, levaria a perda de tempo. Mas
gostaria de colocar algumas idéias.
É importantíssimo analisar, com o instrumental da
ciência, os fenômenos ditos "supranormais", mas o que essencialmente direciona
nossos espíritos a fazê-lo é algo de ordem maior que a simplesmente material, que no
campo do pensamento humano tem sido tratado pela filosofia e pela religião.
Kardec admitiu claramente que existem
conseqüências religiosas, advindas da constatação da existência dos espíritos,
implicações morais que envolvem a preocupação com a nossa transformação moral.
O estudo das manifestações espirituais, dando a
conhecer as leis que as regem, dá-nos nova luz para interpretar muitas passagens das
escrituras bíblicas, muitas vezes obscuras ou que aludem a fatos tidos por miraculosos.
As conclusões científicas também se fazem ver
por nova luz, dado que além de sabermos como se dão os fenômenos do mundo físico,
passamos a saber também o motivo de sua existência, qual a razão de estarmos aqui
vivos, quais os laços que prendem a alma ao organismo e por que.
Não podemos atribuir ao caráter religioso da
doutrina os mesmos adjetivos que se pode aplicar as outras religiões, como se o
pensamento religioso fosse naturalmente oposto à investigação científica ou limitasse
a mente humana.
Se aplicarmos o termo religião ao espiritismo,
associando religião à práticas ritualísticas e dogmas incontestáveis, então,
certamente não será difícil rejeitá-lo. Longe daí, compreendo o aspecto religioso da
doutrina como uma forma de direcionamento moral à toda conclusão que a ciência nos
possa apresentar.
A religião, dessa forma, só tem a crescer,
acompanhando o progresso e contribuindo para a formação moral de espíritos livres,
sinceramente empenhados no conhecimento das verdades eternas.
A partir daí, o espiritismo não é proposta de
ruptura com o cristianismo, ao contrário, é uma proposta de engrandecimento, na
verdadeira prática dos valores cristãos.
Compreendo que se o Espiritismo não for capaz de
realizar transformações nas pessoas, de nada vale. E a vivência cristã é que traz
essas transformações, como então tentar separar espiritismo de cristianismo?
Pode-se argumentar que não é só nos ensinamentos
cristãos que encontramos fundamentos para a transformação moral da humanidade, já que
outras doutrinas, mesmo anteriores ao cristianismo, nos apresentam valiosos ensinamentos.
Mas Jesus de Nazaré é o nosso mestre por excelência, e se buscamos seguir seus
ensinamentos, como não ser adjetivados cristãos?
A negativa em fazê-lo talvez seja proveniente do
receio em sermos misturados aos outros ditos cristãos, e que tanto já praticaram de
errado em nome do cristianismo. Ainda assim, o cristianismo em sua essência não perdeu
sua pureza, pois que ela repousa nos ensinamentos do Cristo, e se nos propomos a segui-lo,
consequentemente podemos ser chamados cristãos.
Os recursos do raciocínio são engrandecidos pela
vivência evangélica. Admitir o cristianismo não nos tira o bom senso e a razão
judiciosa. Sinceramente, discutir esses assuntos é muito importante, pois qualquer um de
nós pode estar incorrendo em erros de interpretação, e nosso ponto de vista deve
frequentemente ser comparado a pontos de vista diferentes dos nossos, através do diálogo
sadio.
A fé deve se fundamentar no questionamento
constante. Mas parece-me inevitável que esteja se estabelecendo arena a discussões
improdutivas, arriscando-nos muitas vezes a perder a tolerância e a solidariedade.
Coloquemos mais alto o pensamento, buscando a
revivescência dos valores que Jesus nos trouxe... se vamos então nos chamar cristãos ou
não, se vamos ser uma religião ou não, é questiúncula, muito mais expressando
divergência conceitual do que de princípios, diante das nossas responsabilidades como
espíritos imortais, que já tivemos acesso a uma fonte maravilhosa de conhecimentos.
Mãos à obra, na ação construtiva. E continuemos
sim, a utilizar a razão, a prudência e o discernimento, com a lucidez que caracterizou o
codificador. Um grande abraço.
Autora: Elisane Ribeiro - Belo Horizonte.
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Excerto retirado de:
GRUPO DE ESTUDOS AVANCADOS ESPIRITAS
Boletim 02 (228) 97 18 Fevereiro 97
http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae228.txt
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