DIRETO NO CORAÇÃO


Entre as expressivas experiências da vida familiar com esposa e filhos, uma delas se destaca de maneira muito especial. Trata-se de momento único, incomparável, que tem permitido ao longo dos anos uma plena expansão dos laços de afeto e harmonia na convivência da família. Este momento ocorre nas reuniões semanais do Evangelho no Lar.

Desde os primeiros meses da vida conjugal implantamos a reunião familiar. Com a chegada dos filhos, o desenvolvimento natural deles mesmos nos períodos da primeira infância, infância propriamente dita, adolescência, mocidade e agora praticamente adultos, a reunião continuou sem interrupção. É claro que é preciso dizer que cada fase dos filhos exige adaptações das abordagens e condução da reunião para que possa lhes provocar interesse e participação. Aliás, uma reunião familiar para estudo dos Evangelhos e, por extensão, da própria Doutrina Espírita, há que se caracterizar por uma dinâmica que não seja sonolenta ou cansativa. Isso significa dizer que ela igualmente poderá utilizar dinâmicas e técnicas que a tornem produtiva e atraente. Agora, com os filhos praticamente adultos, é que sentimos a importância desses encontros semanais. Estão eles naquela fase de interrogações mais fundamentadas, de questionamentos que se tornam altamente salutares e é exatamente aí que a Reunião do Evangelho no Lar vai direto no coração.

Convenhamos que somos todos criaturas em aprendizado. As dificuldades de relacionamento e convivência existem em todas as famílias. Os próprios desafios individuais de cada integrante refletem diretamente na harmonia familiar.

Porém, ao mesmo tempo em que percebemos os frutos da semeadura ao longo dos anos, igualmente felicitamo-nos hoje com uma participação mais consciente de quem quer entender, compreender e, claro, apesar das dificuldades e limitações pessoais que todos somos possuidores, uma vontade ativa de desejar colocar em prática.

Afirmamos que vai direto ao coração porque é o momento em que se abrem os corações para o diálogo construtivo. É o momento em que, em meio ao próprio estudo do tema do dia, pais e filhos conversam. Antes ou depois da reunião, o diálogo vai se desenvolvendo espontâneo, alcançando pontos essenciais para que a harmonia se estabeleça no ambiente caseiro. E, com as vantagens das vibrações em favor de desencarnados presentes, familiares, conhecidos ou mesmo desconhecidos. Isto tudo acrescentado pelas presenças espirituais benfeitoras, atraídas pelo ambiente de harmonia que se estabelece.

A propósito, o Espírito Joanna de Ângelis, no livro MESSE DE AMOR, psicografado por Divaldo Pereira Franco, na conhecida e importante mensagem Jesus contigo, pondera (transcrevemos parcialmente):

"Dedica uma das sete noites da semana ao Culto do Evangelho no Lar, a

fim de que Jesus possa pernoitar em tua casa. Prepara a mesa, coloca água pura, abre o Evangelho, distende a mensagem da fé, enlaça a família e ora. Jesus virá em visita. Quando o Lar se converte em santuário, o crime se recolhe ao museu. Quando a família ora, Jesus se demora em casa. Quando os corações se unem nos liames da Fé, o equilíbrio oferta bênçãos de consolo e a saúde derrama vinho de paz para todos. (...) Quando uma família ora em casa, reunida nas blandícias do Evangelho, toda a rua recebe o benefício da comunhão com o Alto. Se alguém num edifício de apartamentos, alça aos Céus a prece da comunhão em família, todo o edifício se beneficia, qual lâmpada ignorada, acesa na ventania. (...)e quando possível, debate os problemas que te afligem á luz clara da mensagem da Boa Nova e examina as dificuldades que te perturbam ante a inspiração consoladora de Cristo. (...)"

A mensagem de Joanna é clara demais. Os benefícios conquistados para a família, mantidos e espalhados inclusive para vizinhos e espíritos desencarnados são imensos. Por outro lado, o Espírito André Luiz, no livro Conduta Espírita (página 33 da edição FEB), igualmente comenta na lição 5 (intitulada No Lar): Ao menos uma vez por semana, formar o culto do Evangelho com todos aqueles que lhe co-participam da fé, estudando a verdade e irradiando o bem, através de preces e comentários em torno da experiência diária à luz dos postulados espíritas. Quem cultiva o Evangelho em casa, faz da própria casa um templo do Cristo. O que mais nos chama a atenção (para a finalidade desta abordagem), entre outros trechos da mensagem parcialmente transcrita, e gostaríamos de destacar os leitores é a expressão comentários em torno da experiência diária à luz dos postulados espíritas. Ora, é exatamente este o ponto do direto no coração. Isso alcança todos os integrantes da família.

O mesmo espírito André Luiz na obra Os Mensageiros (capítulo 37 – página 197 – da 14ª edição FEB), transcreve importante orientação do instrutor Aniceto que afirma: "Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico. Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética de relativo poder. Por isso mesmo, o culto familiar do Evangelho não é tão só um curso de iluminação interior, mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades espirituais que acende em torno. (...) O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza (...) As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contacto com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm a distância, procurando outros rumos... "

Especialmente este caráter de comentários dos temas e dificuldades cotidianas, à luz do Espiritismo e com os diálogos construtivos da harmonia, acrescido da proteção espiritual que se amplia no lar que ora, é o perfil do Evangelho no Lar e no coração. Sim, porque além dos estudos próprios, a prece se faz presente.

O movimento espírita já disponibilizou há bastante tempo um roteiro simples para condução da reunião. Em síntese, constitui-se de uma leitura introdutória (há ótimas obras indicadas), seguida de prece de abertura. Na seqüência, leitura de trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo que abre espaços para os diálogos e comentários, e prece final com vibrações pela família, enfermos e paz em geral. E isto tudo no espaço de 15 a 30 minutos no máximo, a depender da decisão da família e circunstância do momento.

A propósito, o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo contém preciosidades. Muitas vezes, percebidas apenas nesses colóquios familiares. Nos diálogos dos trechos lidos é que se vai percebendo estas pérolas incutidas, esquecidas nas entrelinhas; percepção aliás somente possível através do estudo continuado, metódico, dialogado, atento. O que realmente ocorre nos instantes da atenção e reunião familiar. O livro todo é um manancial de bençãos. Os capítulos, na seqüência elaborada pelo Codificador Allan Kardec, trazem por si só autênticos roteiros de harmonia interior. Os ensinos de Jesus, à luz do Espiritismo, adquirem extraordinária luz – justamente pela clareza e lógica dos princípios espíritas – e isto tudo pode ser conhecido, avaliado, comentado em família. E, óbvio, vivido intensamente por seus integrantes, apesar – repito – de nossas limitações e dificuldades individuais.

E, falando em dificuldades e limitações, convidamos os leitores a refletirem conosco na crônica do amigo Wellington Balbo, de Bauru-SP, que nos socorre na presente abordagem com sua facilidade textual:

De dentro para fora !!!

 Cláudia andava acabrunhada, há tempos que sentia sua família se desagregando, os diálogos  de outrora deram lugar a indiferença de agora.

 O marido se deleitava com bebedeiras espetaculares, o bar havia se tornado sua moradia. Os filhos não mais tinham tempo sequer para um bom dia.

Ela mesma,  vivia as voltas com uma irritação incontrolável que tornava o ambiente ainda mais hostil.

Até na hora da refeição estava difícil de conversarem,  porquanto, a sala de televisão roubara o lugar dos gostosos bate –papos após o jantar.

Os sonhos já não eram mais compartilhados.

O aconchego de antes   dera  lugar a frieza e solidão!

O que fazer para trazer a interação e o amor de volta ao lar?

A resposta veio através de uma amiga que aconselhou:

-          O Evangelho é o néctar da verdade, é luz que resplandece na vida de toda a família, na Terra, é o porto seguro para todos os planos do infinito, traga-o para dentro de sua casa.

-          Cultive o Evangelho no lar, reserve um dia da semana para meditar em torno dos ensinamentos de Jesus, essas reflexões, trarão ao seu lar uma atmosfera leve, sutil, propícia a intervenção dos amigos espirituais que velam por nós.

-          No começo,  certamente encontrarás resistência, mas persevere e confie, dê o primeiro passo, plante edificação e colherá a união da família!

Assim fez Cláudia, abriu as portas da sua casa para o Evangelho, tanto fez, tanto lutou, que em um ano começou a colher seu plantio de perseverança e amor.

Ao trazer a flor do Evangelho para o lar, conquistou o jardim da união familiar!

Imaginemos se todas as famílias se dispuserem a banhar seus lares com 20 minutos semanais dedicados ao estudo do Evangelho de Jesus.

Fatalmente acontecerá uma renovação nas idéias e no comportamento da família , revertendo-se em benção não só dentro do lar, como também fora dele.

Será brilho de fraternidade que irradiará para além das fronteiras da família, verdadeira transformação de "Dentro para Fora"!

 

A iniciativa familiar de reunir e estudar os Evangelhos, à luz do Espiritismo, exigirá determinação, perseverança, boa vontade. Nem sempre esses requisitos estarão presentes. Muitos obstáculos surgirão, seja no início da implantação, seja no decorrer dos anos. Por experiência pessoal em família posso dizer aos amigos que muitas dificuldades se apresentaram na continuidade natural das reuniões. Mas a perseverança é o toque essencial. Semanalmente, lá estamos reunidos. Houve ocasiões que necessitamos adaptar dias e horários; ocorreram igualmente obstáculos à primeira vista intransponíveis e logo depois superados. Viagens, visitas, enfermidades, atropelos, compromissos de uns ou de todos, coincidentes com o horário combinado. Tudo isso ocorreu. Mas não foi motivo que o compromisso fosse interrompido, embora tenha sofrido adaptações de dias e horários.

O importante é que haja espontaneidade, que tira caráter de obrigação para se transformar num momento esperado e feliz. A rigidez deve ser com o compromisso, não com a condução da reunião. A rigidez afasta, irrita, cria dificuldades. E é a espontaneidade que cria o ambiente, o diálogo construtivo.

Os filhos passam a perceber a importância da prece, valorizam o estudo, compreendem os postulados espíritas e adquirem a visão de abrangência que somente a Doutrina Espírita oferece sobre os desafios cotidianos. O casal, por sua vez, equilibra-se ou usa as reflexões para construir a própria harmonia conjugal e em favor da família. É mesmo uma benção!

E, se pensarmos bem, a prática do Evangelho no Lar é ferramenta fabulosa para semear a paz que o mundo precisa. Já imaginamos se em toda casa, independente de crença doutrinária, colocassem-se seus membros a estudar os ensinos de Jesus? A paz iria para a rua, para a sociedade, para os relacionamentos. E nós os espíritas, ainda temos a extensão da Revelação Espírita que lança mais luz sobre os ensinos do Mestre. Que tesouro, meu Deus!

Espírita de nascimento (e portanto, presente e participando das reuniões em família desde muito pequeno), sempre impressionei-me com a quantidade de vezes que meus pais citavam Allan Kardec e suas obras; intrigava-me a mente perceber as reuniões no centro espírita sempre embasadas nessas obras, o que não entendia até por imaturidade. Com o passar do tempo, amadurecendo com a própria idade e experiência de vida, fui percebendo a extraordinária grandeza da Doutrina Espírita. Apesar de estar sempre envolvido com os livros, estudando, lendo, escrevendo, falando, surpreendo-me a cada passo. Verdadeiramente encanto-me com a lógica, lucidez, clareza, do pensamento de Kardec e com a revelação dos espíritos.

As diversas questões das obras básicas, de variada temática, ampliam a visão de mundo. E é em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a ser estudado em família, que vamos encontrar preciosas pérolas – perdoem-nos os leitores repetir a expressão, mas é como nos sentimos ao tentar definir tais ensinos – a nos orientar a vida.

Seria impossível citar e comentar cada ensino, mesmo porque o próprio livro já o traz. Gostaria, todavia, para encerrar nossos comentários, de convidar o leitor a buscar o capítulo 28 da citada obra. Referido capítulo traz comentários sobre a prece e uma coletânea de modelos de preces para reflexão dos leitores. Não para ser decorada e repetida, mas para ser entendida até como roteiro de vida. E, neste capítulo, antes do modelo de cada prece, Allan Kardec coloca resumido prefácio para introduzir o assunto. Embora de poucas linhas, quantos ensinos ali condensados. Preciosidades para serem mais conhecidas, debatidas e refletidas com a devida seriedade para vivermos uma vida de mais equilíbrio.

Para a leitura introdutória da reunião, os magníficos livros de comentários sobre os Evangelhos, ditados pelo Espírito Emmanuel, são outras tantas fontes de fecundos ensinamentos. A própria prece, inicial e final, já é um exercício de espontaneidade e confiança nos ditames sábios que dirigem a vida humana.

Fica, pois, um novo momento de valorização desta abençoada prática. Concluo com o convite de Simeão*: Se vós vos dizei espíritas, sede-o pois; olvidai o mal que se vos pôde fazer e não pensei senão uma coisa: o bem que podeis realizar. Na prática caseira de O Evangelho no Lar temos também todas essas oportunidades!

*capítulo X de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 14.

Autor: Orson Peter Carrara e Wellington Balbo
orsonpeter@yahoo.com.br

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