
Deus poderia ter criado perfeitos os Espíritos?
Eis uma pergunta sempre apresentada. Com a criação de espíritos
perfeitos, Deus não pouparia os próprios filhos do mal, do sofrimento, e de todas as
suas conseqüências?
Claro que Deus o
poderia ter feito. Ele é todo-poderoso(1) e se não o fez é porque julgou útil que
fosse de forma diferente. O assunto é empolgante e propicia sadias discussões para seu
entendimento, pois aprofunda a questão de Deus e sua magnífica obra. Afinal, estamos
todos neste "barco" da evolução, envolvidos ora em situações complexas, ora
empolgados com as perspectivas do progresso fatal para todos e muitas vezes envolvidos com
os desafios e obstáculos, que no fundo são verdadeiras alavancas do aprimoramento, que
nos fazem crescer e progredir.
Na Revista Espírita(2),
em sua edição de março de 1864(3), o Codificador Allan Kardec apresenta o texto A
Perfeição dos Seres Criados e coloca bem fundamentadas argumentações sobre o tema.
Acompanhemos seu raciocínio, após importante parágrafo em que aborda a grandeza de Deus
e suas perfeições e que sugerimos ao leitor consultar; aqui transcrevemos parcialmente a
partir do terceiro parágrafo:
"(...) Sendo Deus
todo sabedoria e todo bondade, não poderia ter criado o mal como contra-peso do bem; se
tivesse feito do mal uma lei necessária, teria voluntariamente enfraquecido o poder do
bem, porque aquilo que é mal não pode senão alterar e não fortificar o que é o bem.
Ele estabeleceu leis que são inteiramente justas e boas; o homem seria perfeitamente
feliz se as observasse escrupulosamente; mas a menor infração a essas leis causa uma
perturbação cujo contragolpe experimenta; daí todas as suas vicissitudes; é, ele
próprio, a causa do mal por sua desobediência às leis de Deus. Deus o criou livre para
escolher seu caminho. O que tomou o mau caminho o fez por sua vontade e não pode acusar
senão a si próprio pelas conseqüências daí decorrentes. (...)".
Origem do mal
Analisando bem a
transcrição acima, nos deparamos com a fantástica e lógica afirmação de que Deus
não poderia ter criado o mal; este é fruto da ação livre do ser. E ação gera frutos,
que podem ser bons ou ruins, de acordo com a qualidade da ação. Observemos a grandeza da
transcrição seguinte: "(...) Criados simples e ignorantes, por isso imperfeitos, ou
melhor incompletos, devem adquirir, por si mesmos e por sua própria atividade, a ciência
e a experiência que de início não podem ter. Se Deus os tivesse criado perfeitos,
deveria tê-los dotado, desde o instante de sua criação, com a universalidade dos
conhecimentos; tê-los-ia isentado de todo trabalho intelectual; mas, ao mesmo tempo, lhes
teria tirado toda a atividade que devem desenvolver para adquirir, e pela qual concorrem,
como encarnados e desencarnados, ao aperfeiçoamento material dos mundos, trabalho que
não incumbe mais aos espíritos superiores encarregados somente de dirigir o
aperfeiçoamento moral. Por sua inferioridade tornam-se uma engrenagem essencial à obra
geral da ciração (...)".
E a justiça?
Esse processo todo cria
os méritos pela aquisição das condições morais melhores e superiores; e Deus,
fatalmente, não pode estar enganado. Suas leis foram estabelecidas sobre princípios
claros de justiça e bondade. Como ainda não temos a compreensão completa deste
planejamento, cabe-nos o dever - já que estamos incluídos no processo coletivo - de
estudar para compreender. Se não podemos sondar as causas, podemos estudar os efeitos e
perceber que tudo está regido por sábias leis, conduzidas pela grandeza e bondade de um
Pai amoroso e que deseja o progresso de seus filhos para merecerem a felicidade a eles
destinada.
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(1).
Vide questão 13 de O Livro dos Espíritos.
(2). Publicação fundada por Allan Kardec em 1858 e com circulação até os dias atuais.
(3). Edição da EDICEL, São Paulo - 1966 -, tradução de Júlio Abreu Filho, páginas
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Autor: Orson
Peter Carrara
orsonpeter@yahoo.com.br
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