Ciência Espírita - Reflexões Filosóficas
Religião
milagres, profecias, prodígios e dogmas irracionais.
Conseguindo
explicar os mistérios do mundo e da vida, as concepções religiosas
desempenhavam um papel superior ao da ciência iniciante da época. A religião fornece
segurança, conforta no sofrimento, alivia nossos medos, faz troca com nossos
pecados e assegura a esperança numa vida futura, onde conseguiremos obter o
que a Terra não nos privilegiou.
Ciência o
estatuto do conhecimento verdadeiro, racionalidade, indeterminação, pensamento livre
para criar a sua verdade.
Galileu usa o raciocínio matemático
para comprovar as tese de Copérnico deslocando o Sol para o centro e colocando a Terra no
cortejo dos planetas ao seu redor. Num mundo tido como regular e perfeito ele descobre as
irregularidades da superfície lunar onde viu suas crateras. Num sistema imutável ele
acrescentou luas a Júpiter que não foram descritas por Aristóteles.
O alicerce da
Igreja viu-se abalado por novas descobertas que sucederam rápidas. Ticho Brahe,
testemunhou por dois meses a passagem de uma estrela nova no firmamento que a Igreja
supunha fixo e invariável. Johanes Kepler comprovou matematicamente que as órbitas dos
planetas são elípticas e não círculos perfeito como se supunha. René Descartes
construiu um sistema filosófico que permitiriaa separar o corpo da Alma e André
Vessálius inaugurou o estudo da anatomia humana num corpo que lhe parecia comportar-se
como uma máquina, capaz de mover-se com músculos sem a ajuda do espírito.
Mais tarde, Isaac
Newton, identificou a força atrativa que mantém os astros em suas órbitas,
que movimenta as águas dos oceanos no sobe e desce das marés e provoca a queda os
corpos.
Gradativamente as
forças imateriais que produziam o movimento e a ordem do Universo foram reconhecidas como
forças da gravidade. As Leis divinas que mantém a regularidade dos fenômenos físicos
foram substituídas por princípios matemáticos. Os mistérios que sustentam a vida foram
compreendidos como combustão do oxigênio, fermentação dos alimentos ou metabolismo
celular. Os espíritos animais que transitam pelo corpo humano produzindo seus
reflexos e movimentos, foram identificados quimicamente como neuro-transmissores. A
regularidade dos acontecimentos foi violada pelo princípio da incerteza. O determinismo
linear de uma causa para cada efeito foi abalado pela casualidade circular em que o
padrão de resposta determina a intensidade da causa.
O paradoxo
ciência como religião dogmas, rituais, hierarquia, o sagrado e o
profano
Historicamente a Religião tem base na
tradição cultural dos seus seguidores. Seu conteúdo, que orienta o comportamento dos
fiéis, está redigido em textos sagrados que persistem inalterados por séculos. A
linguagem ai empregada é quase sempre simbólica permitindo interpretações
conflitantes. Daí a importância do sacerdote e do sistema de hierarquia que os
classifica. Entre esses sacerdotes são distribuídas as regalias materiais e o poder
divino que os pressupõem representantes de Deus na Terra.
Por outro lado, a construção do saber produzido pela ciência é uma conquista do esforço individual ou de um grupo de pesquisadores. Seus textos, embora redigidos em linguagem técnica, procuram ser o mais claro possível para compreensão dos interessados. A verdade é procurada exaustivamente pela observação ou pela experimentação. Textos escritos ou opiniões pronunciadas por personalidades hierarquicamente destacadas, têm importância relativa e, para serem aceitas, precisarão submeter-se a comprovação realizadas por experimentadores independentes. O conhecimento cientifico tem duração relativamente curta, costumam se reunirem em um conjunto de proposições teóricas que constituem um paradigma e, de tempos em tempos, os cientistas envolvem-se na tentativa de proporem novos e mais adequados paradigmas.
A Ciência não
deixou de ocupar-se, também, com dilemas que sempre estiveram sob o domínio das
religiões. Ela tem, a seu modo, uma proposta para a origem do Universo e da vida na
Terra. É apropriado para a Ciência pesquisar o mecanismo que desencadeia os fenômenos,
como eles acontecem, mais do que tentar explicar porque eles acontecem. Ela se ocupa
minuciosamente com a causa da dor e muito pouco com o porquê do sofrimento humano. A
opção da Ciência é esclarecer, mais do que consolar.
Já é aceito por
todos que para fazer ciência é preciso adotar o método científico. Classicamente a
pesquisa precisa estar enquadrada na liturgia do método. Usa-se a dedução ou a
indução; a observação ou a experimentação. Os fenômenos estudados fornecem os
elementos que, aplicados a raciocínios matemáticos, fornecem o valor da verdade
descoberta.
Algumas proposições científicas já
estão de tal forma comprovadas e aceitas que deverão ter a duração eterna das verdades
sagradas das religiões - a gravidade existe como força de atração em todo universo - a
energia tem valor inviolável, ela se transforma, mas, não se cria nem se perde o
calor tende a se dispersar, assim como toda energia do universo onde a tendência é o
caos - a luz é um fenômeno eletromagnético - a matéria visível em todo universo é da
mesma natureza da matéria existente na Terra - as moléculas de todas as substâncias
estão em constante movimento - a variedade das espécies se deve a evolução pela
seleção natural.
A Ciência
Espírita - Fundamentos teóricos, controle experimental, filosofia espiritualista e
conteúdo moral.
O texto da
doutrina espírita teve início com as revelações transmitidas por Espíritos
desencarnados de natureza superior, com o propósito de esclarecerem e orientarem a
humanidade.
Os objetos de
estudo da doutrina espírita incluem o mundo espiritual, os seres que o habitam, suas
relações com o mundo material e as conseqüências dessa relação.
Para o espiritismo, a grandiosidade do Universo e as leis inteligentes que o governam são provas suficientes para comprovarem a existência de Deus.
Deus é criador de tudo que existe e sua criação é incessante. Na situação evolutiva em que se encontra a humanidade, ainda não temos condições de compreender a origem do Universo e da vida na Terra. O que se tem como certo é que Deus sempre criou e sempre continuará criando.
Existem dois
elementos fundamentais no Universo, o espiritual e o material. O elemento espiritual tem
início como princípio inteligente. Essa centelha espiritual
transita do mundo espiritual ao mundo material ocupando corpos que lhe permite evoluir na
escala da vida inteligente na Terra. O Universo é preenchido por um fluido de
natureza sutil, com propriedades que ainda escapam ao nosso entendimento. È dele que se
origina toda matéria conhecida. As propriedades das substâncias só existem em função
desse fluido e pela sua atuação essas propriedades podem sofrer as mais diversas
alterações. A acidez ou a alcalinidade é dada pela presença desse fluido e por sua
atuação um copo de água pode curar ou produzir malefícios.
Existe um
propósito divino na criação. Estamos todos destinados a caminhar pela extensa fieira
das existências, na Terra ou em outros mundos, buscando a condição de espíritos
angélicos que um dia atingiremos.
Deus atua através
de Leis que a inteligência humana irá gradativamente descobrindo. Estamos todos
mergulhados no pensamento de Deus e nada que ocorre no Universo escapa ao seu
consentimento. Somos livres para agir e obrigados a arcar com as conseqüências dos
nossos atos. Cada um é responsável pelo seu próprio destino. As Leis morais são
pressentidas pela consciência de todos nós e à medida que a humanidade avançar na sua
evolução o Homem será cada vez mais conscientes da aplicação dessas Leis.
O mundo espiritual está permanentemente
em íntimo contato com o mundo material. Um e outro processam trocas fluídicas entre si e
exercem influência sobre o outro. Essa interferência recíproca é tão intensa que não
há como permanecer sem sua convivência. Uma multidão de espíritos desencarnados
transita com cumplicidade em todos ambientes da Terra. Eles nos acompanham e nós os
atraímos compartilhando com eles nossa intimidade. Os pensamentos que frequentemente
temos como sendo nossos, são, muitas vezes, o pensamento deles. Dentro das Leis divinas
está estabelecido que atraímos para nossa companhia aqueles com quem sintonizamos nossos
propósitos. O bem atrai os bons e o mal conviverá com a ignorância.
Por envolver o mundo espiritual e os
Espíritos que aí habitam, não temos controle da comunicação espiritual, e, os
métodos da ciência humana, seu sistema de controle e experimentação, não se aplicam
à ciência do Espírito. Entretanto, alguns homens têm em sua constituição uma
disposição especial que lhes permite entrar em contato lúcido com os espíritos
desencarnados. Trata-se do fenômeno da mediunidade que se registra em todos os povos e em
todas as épocas da humanidade. A mediunidade é o grande campo de experimentação em que
a doutrina espírita apóia-se para revelação e comprovação dos seus postulados. A
expectativa futura é de que no decorrer dos séculos todos os homens possam estar
conscientes do seu intercâmbio com o mundo espiritual. Os fenômenos mediúnicos explicam
uma série de ocorrências frequentemente tidas como sobrenaturais ou produzidos por uma
energia desconhecida. A transmissão do pensamento, a visão à distância, as
premunições, a xenoglossia, a psicometria, a psicografia e a psicofonia são exemplos
já bem estudados e esclarecidos pelo espiritismo.
Autor: O
neurocirurgião Nubor Orlando Facure é professor
aposentado da Unicamp, presidente e fundador do "Instituto do Cérebro", na
cidade de Campinas. Embora afastado da Universidade, Nubor continua clinicando em
consultório próprio e no Instituto do Cérebro, escrevendo e publicando livros e também
fazendo palestras nas casas espíritas e instituições acadêmicas.
e-mail do autor: lfacure@uol.com.br