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Ciência do Espírito: o problema da reprodutibilidade e controle dos fenômenos espirituais

 

 

Fenômenos ditos "sobrenaturais", "paranormais" ou "espirituais" têm sido objeto de estudo de diversos segmentos como a Parapsicologia, a Psicobiofísica e o Espiritismo. Alguns destes segmentos têm utilizado até mesmo instrumentos eletrônicos e recursos estatísticos para realizar suas análises e satisfazer requisitos básicos das ciências clássicas como a reprodutibilidade, a objetividade e a mensurabilidade. Aqui discuto as razões que levam os pesquisadores a tentarem atingir estes requisitos básicos das ciências clássicas e porque é tão difícil atingir estes mesmos requisitos.

1. O Território da Cientificidade

    No estudo dos fenômenos espirituais nos deparamos com certas limitações no que se refere à experimentação científica. Esta classe de fenômenos é ainda muito pouco estudada quando comparada com outros objetos de estudo das ciências clássicas.

    A filosofia da ciência reflete sobre o significado da ciência, sobre o quê é ou não é ciência 1, 2. Sem entrar neste campo de discussão, pode-se afirmar que é mais correto usar a expressão "ciências" ao invés de "ciência" como um único objeto homogêneo e unificado. Mesmo entre as ciências ditas "clássicas", existe uma diversidade tão grande de objetos de estudo, métodos e técnicas, que algumas são completamente estranhas umas as outras.

    Porém, de maneira geral, uma ciência atinge maior status tanto quanto consegue apresentar bem sucedidamente certas características como: reprodutibilidade, controle de seus experimentos, redutibilidade das leis fundamentais que regem o fenômeno, previsibilidade, mensurabilidade, imparcialidade e refutabilidade (o que não pode ser refutado, como a fé, não pode ser científico). Estas características, que não são todas, permitem um melhor conhecimento do objeto de estudo e uma melhor aplicação da técnica ou tecnologia que pretende manipular o objeto, daí o maior sucesso das ciências exatas que atingem um controle meticuloso, satisfazendo as necessidades práticas e produtivas com grande eficiência.

    Quando a ciência estuda objetos e fenômenos menos controláveis e redutíveis, ela passa a ter um controle menos preciso. É o caso das ciências humanas que já possuem muitos campos reconhecidos e outros que lutam pelo direito de afirmarem-se "científicos", como é o caso da Psicanálise e doutrinas econômicas como o Marxismo que ainda não são aceitas por alguns mais ortodoxos como ciência. Algo semelhante ocorre com outros campos da ciência que estudam fenômenos complexos e sistêmicos como as ciências ambientais, que têm mais dificuldades na previsibilidade dos fenômenos estudados.

    Por isso, as empresas e órgãos de fomento à pesquisa destinam maiores partes de seus investimentos às ciências exatas e de aplicação tecnológica rentável. O aspirante a pesquisador que está mais preocupado com seu sucesso e reconhecimento do que com sua vocação específica, também não costuma se arriscar pelos terrenos incertos das ciências não exatas e tecnológicas. É mais seguro andar por um terreno sólido do que pelo campo movediço das ciências que estudam fenômenos menos controláveis e redutíveis, além disso, ele terá maiores chances de financiamento se ficar com a primeira opção.

    Pioneirismo é para uns poucos que são capazes de arriscar seu nome e sua reputação, isso quando possuem um nome para serem ouvidos, caso contrário, são ignorados. Mesmo quando se inova dentro das ciências clássicas, este é um ato de coragem diante da hostilidade da dita "comunidade científica". A história conta os casos dos pioneiros que deram certo, que conseguiram calar seus opositores e se tornaram grandes cientistas, mas nunca conta sobre os que foram sepultados por terem a herética postura de ousar um pouco mais. Podemos observar que a prática da ciência não é pura e está também sob a influência de outros interesses alheios ao desenvolvimento da própria ciência. Encontramos nestes arraiais, desde a briga de egos inflados até o confronto de interesses políticos e econômicos.

    2. Fenômenos Espirituais e Investigação Científica

    De toda classe de fenômenos, os ditos fenômenos espirituais são os menos redutíveis e controláveis e, por isso, mais distantes de atingir aqueles famigerados requisitos que dão o status de ciência ou "mais ciência que as outras". Muitos fenômenos desta natureza foram registrados com maior ou menor sucesso, sem que se concluísse de maneira satisfatória a causa dos mesmos, ou seja, o fato de registrarmos com sucesso a ocorrência de um fenômeno "paranormal" não significa que detectamos suas causas. A parapsicologia afirma que a psi é a causa dos fenômenos observados, pode-se afirmar também que tais fenômenos são provocados por um agente espiritual, porém é difícil isolar as causar a fim de que elas possam ser contestadas experimentalmente, ou seja, como contestar algo que não é registrável ou experimentável? Então, muitas das ciências espiritualistas podem ser consideradas científicas por usarem métodos e técnicas das ciências clássicas, mas, ao mesmo tempo, não podem ser consideradas científicas quando se remetem a causas não experimentáveis pelo próprio método científico.

    As "ciências espiritualistas" estão comumente associadas às ciências humanas como a filosofia e a psicologia. Para o horror de alguns cientistas das ciências humanas, que aspiram para suas escolas o cargo de "mais ciência que as outras" (ou pelo menos "ciência como as outras") tais escolas científicas são confundidas, invadidas ou acusadas de misticismo. Nada pior para quem quer progredir como ciência do que ser associado a crendices ou ser invadido por um rebanho de espiritualistas que vêm comprometer sua cientificidade.

    A parapsicologia surgiu também em meio a essa quase neurose de adequar-se àquelas características das ciências clássicas a fim de obter maior respeitabilidade no meio científico e maior eficiência e controle dos fenômenos estudados. Segundo Andrade3 esta escola sucedeu-se à antiga metapsíquica de Charles Richet diferindo-se desta última principalmente pelo aspecto quantitativo-estatístico, mas, assim como na metapsíquica, a possibilidade de provocar e reproduzir tais fenômenos é limitada: Sua repetibilidade é praticamente inexistente e faz lembrar os fenômenos astronômicos. Alguns críticos têm usado este fato como argumento contrário ao valor científico destas escolas. Exércitos interessaram-se pelos estudos e observações da parapsicologia 4, a antiga União Soviética e os Estados Unidos são os melhores exemplos, e não passa pela cabeça de ninguém as "boas intenções" que eles tinham ao tentarem manipular tais fenômenos. Apesar dos inúmeros relatos mais ou menos confiáveis de experiências bem sucedidas na época da guerra fria, o fato é que esta parceria não permaneceu, pois o controle, precisão, reprodutibilidade e determinação das leis fundamentais que regiam os fenômenos não fora precisados satisfatoriamente aos interesses militares, infelizmente para a parapsicologia e felizmente para a humanidade, uma vez que os exércitos não conseguiram manipular os fenômenos psíquicos em prol de seus interesses.

    A parapsicologia, principalmente no auge da guerra fria, teve no poderio militar um aliado perfeito. Eles precisavam de financiamento para seus experimentos e não convinha serem questionados profundamente sobre suas técnicas e métodos. O exército dispunha do financiamento necessário e não tinha que prestar contas de como era aplicado e, além disso, não tinham competência para questionar os pesquisadores parapsicólogos quanto aos seus procedimentos e técnicas. Mas, como o exército queria produção de resultados, o casamento feliz não durou para sempre. A fim de atingir resultados, a parapsicologia, que já surgiu nos meios acadêmicos tradicionais mais marcadamente na Universidade de Duke a partir de 1927 com o Dr. William McDougall 5), dispunha de um arsenal de métodos e técnicas das ciências exatas e tradicionais tais como: análises estatísticas, experimentos delineados conforme as ciências clássicas, aparelhos eletrônicos 6, mas não conseguiu atingir o status de ciência na concepção mais clássica do termo.

    3. O Desejo pela Cientificidade

    Parece mesmo que o desejo oculto de todo pesquisador do mundo espiritual é encontrar a chave que permita atender plenamente a todos os requisitos das ciências clássicas, obterem o reconhecimento da comunidade científica e deixarem de ser parias da ciência para poder calar a boca dos que desdenham ou silenciam com sua indiferença excludente. Mas não sei bem se este sonho platônico é saudável e se ele mais contribui do que atrapalha o desenvolvimento do conhecimento da espiritualidade.

    Por outro lado, o fato de não se conseguir precisão e controle tão apurados como nas ciências exatas, não significa que os métodos e técnicas das ciências que investigam a espiritualidade (quando estes métodos são realmente das ciências espiritualistas) sejam menos eficazes ou mais limitados, até porque, esta "eficácia" é apenas um valor pelo qual optamos e que se refere aos nossos planos de exploração e controle da natureza e aquisição de benefícios financeiros.

    Se nos referenciarmos em outros valores, poderemos também questionar a eficiência das ciências clássicas no que se refere à criação de uma sociedade mais justa, feliz e eqüitativa. Observemos que o fato de atribuirmos "eficiência" a alguma coisa, deixa implícita a idéia de que esta eficiência se dá em relação à aquisição de algo a revelia de outras coisas consideradas menos importantes.

    Na atualidade já emerge uma nova compreensão da natureza que nos aclara o porquê de alguns fenômenos serem menos controláveis e reprodutíveis. Até mesmo a física, clássica das ciências clássicas, tem se deparado com uma ordem de fenômenos de natureza imprevisível que não segue um padrão determinista. Estamos falando dos fenômenos quânticos, mas outros tantos campos como a teoria do caos revelam de maneira mais profunda que quase nada é perfeitamente preciso e controlável. Outrora, antes da emergência destes novos paradigmas, tentava-se adequar a todo custo técnicas e métodos das ciências clássicas ao estudo de objetos menos precisos como o comportamento humano. Foi mais ou menos o que fez a parapsicologia ao usar seu arsenal estatístico quantitativo na pesquisa de fenômenos psíquicos ou espirituais. Não significa que esta tentativa não tenha seus méritos e sucessos, ela foi muito útil e chegou a produzir resultados no mínimo intrigantes, mas muitos dos resultados obtidos por Rhine na Universidade de Duke não foram repetidos com êxito por outros pesquisadores, como dissemos, estes fenômenos não são tão controláveis e aí estava  berta a fresta para que os mais céticos e opositores refutassem o valor científico de tais descobertas 7.

    O que defendo neste artigo não é uma cisão entre ciência e espiritualidade, mas que os pesquisadores da espiritualidade não se atrelem a uma necessidade esquizofrênica de adequação ao paradigma clássico das ciências tradicionais. Esta postura provoca certas deformações, pois o fenômeno estudado exige uma abordagem única e apropriada à sua natureza. Em alguns casos, nem se consegue fazer tais deformações tamanha é a disparidade entre o objeto estudado e o modelo usado para analisá-lo. Por exemplo: quando os físicos se depararam com os fenômenos quânticos, tentaram por anos, e sem sucesso, explica-los através do modelo tradicional da física. Foi preciso criar um novo modelo, completamente distinto, a fim de estudar esta nova ordem de fenômenos, assim, a física quântica resistiu às possíveis deformações que resultariam em tentar explica-la pela física clássica.

    Acontece que os pesquisadores do mundo espiritual são quase sempre oriundos das ciências clássicas e academias científicas onde predomina o paradigma reducionista, mecanicista e materialista. Estão por isso, mesmo sem se darem conta, impregnados pelos preconceitos e conceitos destas ciências, sempre repetindo os procedimentos criados sob este paradigma. A física quântica demonstra o porquê de certos fenômenos serem menos controláveis e esta concepção nos permite formular novos sistemas de conhecimentos plenamente válidos, que porém são mais adequados ao estudo de objetos de natureza não material.

    4. Nova Ciência de Estudo da Espiritualidade

Referências

1 CHALMERS, Alan. O Que é Ciência Afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993

2 CHIBENI, S. S. O Que é Ciência? Departamento de Filosofia – Unicamp http://www.unicamp.br/~chibeni

3 ANDRADE, Hernani G. Parapsicologia Experimental. Pensamento. São Paulo – SP, 1966.

4 SCHULZ, Ubiratan. Guerra Fria Parapsicológica. Disponível em: http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=3710 consulta realizada em 25 de novembro de 2007.

5 CAVENDISH, Richard. Org. Enciclopédia do Sobrenatural: magia, ocultismo, esoterismo, parapsicologia. Porto Alegre: L&PM, 1993.

6 BRAGA, Newton C. Eletrônica Paranormal: projetos para outra dimensão. Saber. São Paulo SP. 2006.

7 THOMAS, John A. Disponível em: http://www.ceticismoaberto.com/paranormal/esp.htm consulta realizada em 25 de novembro de 2007.

8 KADEC, Allan. O Livros dos Espíritos. Questões 26 e 27. 76ª Ed. FEB. Trad. Guillon Ribeiro. 1944.

9 KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. XIV. 36ª Ed. FEB. Trad. Gullon Ribeiro. 1944.

10 DESCARTES, René. Discurso Sobre o Método. São Paulo: Hemus Editora Limitada, 1995.

11 MOODY JR. Raymond. Vida Despues de la Vida. Madrid. Ed. Edaf. 1975.

12 Miraculous Messages from Water. Disponível em: http://www.lifeenthusiast. com/twilight/research_emoto.htm Consulta realizada em 27 de novembro de 2007.

13 TOMPKINS, P. & BIRD, C. A Vida Secreta das Plantas. 3ª Ed. Expressão e Cultura.

14 GUITTON, Jean. et al. Deus e a Ciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

15 A Ponte Entre Ciência e a Religião. Disponível em: http://www.saindodamatrix.com.br/ Consulta realizada em 27 de novembro de 2007.

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AUTOR: Breno Henrique de Souza

Membro da Federação Espírita Paraibana e 

do Núcleo Espírita Eurípedes Barsanulfo.

bhsousa@yahoo.com.br

publicado com autorização do autor

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