
ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE UMA CERTA "ANTROPOLOGIA KARDECISTA NO BRASIL"
Chegou-me às mãos um texto, aparentemente retirado de uma publicação universitária, com o título de "Antropologia kardecista no Brasil", atribuído a um certo Ari Antônio da Silva, apresentado como professor no Departamento de Filosofia da UNISINOS e nas Faculdades de Taquara, além de Doutor em Filosofia pela Universidade Pontifícia de Salamanca/Espanha.
O texto é classificado pelo autor como "tese doutoral", portanto, suponho que seja a tese que lhe proporcionou tal título em Salamanca. Pela parcialidade com que trata o assunto vê-se que o autor, como bom católico, é anti-espírita. Direito dele. Se não gosta do Espiritismo, ataque-o com os recursos que tiver, sofísticos ou filosóficos.
Afinal, é do choque das idéias, livremente expressas, que se faz o progresso do conhecimento. Por minha vez, como espírita, dou-me o direito de criticar o texto, revelando suas falhas e malandragens, assim como duvidar das capacidades da tal PUC espanhola por ter aprovado tese tão dependente da pesquisa bibliográfica, canhestramente interpretada, diga-se de passagem, e tão carente em pesquisa de campo, aparentemente inexistente, principalmente se comparada com a tese dos professores franceses Aubrée e Laplantine, abordada em artigo anterior.
Logo na Introdução encontramos uma série de afirmações arbitrárias: "No Brasil, o espiritismo é visto como uma opção de vida... Por causa desta opção, sente-se que parte da sociedade brasileira vive uma indolência frente aos desafios existenciais e busca refúgio e segurança em casas que trabalham com este tipo de superstição e resposta... Na raiz do Brasil aparece um profundo processo miscigenatório... realidade que fez com que a filosofia, o pensar não fizesse parte do contexto do homem brasileiro... Esta tese doutoral teve como objetivo refletir, à luz da filosofia e da história, sobre todos esses elementos que compõem a estrutura da sociedade brasileira... que até hoje travam o avanço sadio de uma caminhada... Sem considerarmos o espiritismo no Brasil, não seríamos capazes de construir elementos epistêmicos para a construção da identidade do brasileiro".
O autor promete mas não faz uma reflexão sobre as causas da "indolência do brasileiro frente aos desafios", na "raiz do Brasil". Pois se o fizesse não poderia deixar de admitir que essas causas estão no próprio catolicismo. O Brasil foi ideologicamente construído pela Igreja: durante quatro quintos de nossa história ser brasileiro significava ser católico.
E ser católico significava, refiro-me à grande e imensa maioria da população, ser analfabeto, uma vez que havia uma intermediação entre o homem e Deus na figura do sacerdote, que confessava, interpretava, lia as escrituras, aliás, publicadas apenas em latim, e, se publicadas nas línguas populares, condenadas como heréticas e punidas com tortura e morte. Para se estudar melhor as diferenças entre os povos católicos e protestantes veja-se Erich Fromm, "O medo à liberdade".
A educação também, no Brasil, desde sua origem, era monopólio dos ancestrais do doutor, os jesuítas, enfim, padres, e, haja vista a história do colégio de Paranaguá, se não havia padres disponíveis, não havia escolas, e a população continuava analfabeta. A história desse colégio pode ser vista na "História do Paraná", de Altiva Pilatti Balhana, Brasil Pinheiro Machado e Cecília Maria Westphalen, Grafipar.
Contrariamente a isto, nos países colonizados pelos povos que passaram pela Reforma, não existia a intermediação entre o homem e Deus, as escrituras eram traduzidas para as línguas populares e, cada um tinha obrigação de lê-las para sua salvação. Os pais ensinavam os filhos a lerem na Bíblia, não importa em que deserto estivessem habitando nos longínquos rincões do Novo e Novíssimo Mundos. Lauro Oliveira Lima disse certa vez em uma entrevista e, portanto, deve estar em alguma de suas obras, que o critério para que um ajuntamento de pessoas atingisse o status de cidade na América do Norte, era que tivesse escola e banco. No Brasil, a exigência era que tivesse igreja e pelourinho: a coação moral e física. Assim, torna-se ridícula a afirmação: "sem considerarmos o espiritismo no Brasil, não seríamos capazes de construir elementos epistêmicos para a construção da identidade do brasileiro".
A seguir, nos Capítulos 1, 2 e 3 da tese, o autor discorre apenas sobre fatos históricos que não chamam nossa atenção. Mas, no Capítulo 4, volta a fazer afirmações injustificáveis:
"Podemos dividir os espíritas no Brasil em três grupos:
1) espiritismo kardecista: tendência rustenista; paganista; tendências diversas;"
Incompreensível. Em minha opinião teria se saído melhor se dissesse: "espiritismo kardecista: tendência religiosa roustainguista; tendência religiosa kardecista; tendência laica."
2) espiritismo racionalista do Redentor, fundado em 1910 pelo Sr. Luís de Mattos, fundador do espiritismo racional e científico, tendo sede no Rio de Janeiro;"
Essa tendência é insignificante na história do Espiritismo no Brasil, encontrada apenas em algum livro.
3) espiritismo ubaldista: tendência africana, caboclista ou ameríndia, esotérica, São ciprianistas."
Ubaldista ou umbandista? E vemos nesta afirmação, juntamente com outra que ele faz a seguir citando Rosacruz, Teosofia e outros como "grupos que têm proximidade com o espiritismo" a clara intenção de confundir.
No Capítulo 5 ele anuncia que vai citar "alguns aspectos essenciais para o espiritismo". Vejamos como se sai em dois deles:
"O conceito de Deus é um conceito deísta, ou seja, não nega a existência de Deus, mas rejeita qualquer revelação divina ou relacionamento de Deus com a terra e os homens, influência clara do iluminismo. É a doutrina de uma religião natural ou racional. Deus é algo longínquo e impessoal."
Equivocado, talvez por não ter lido "A Gênese", de Allan Kardec, citado na bibliografia, pois senão teria visto no Capítulo II, item 20: "Deus está em toda parte, tudo vê, ..." É Kardec falando da providência divina.
"A evocação dos espíritos é outro elemento na doutrina espírita. É algo importante dentro do espiritismo, que é feito pelo médium... Há todo um ritual a ser seguido na evocação dos espíritos... Sem evocação dos espíritos, não há espiritismo... Pode-se dizer que os pilares do espiritismo são a reencarnação e a evocação dos espíritos."
E cita "O Livro dos Médiuns", de Kardec, e "O Espiritismo no Brasil", daquele famoso frei Kloppenburg para corroborar tal afirmação. Citação apenas livresca. Se tivesse havido um mínimo de pesquisa de campo teria visto que no Brasil não se evoca, há mesmo certa resistência à evocação direta. A grande maioria dos grupos mediúnicos faz uma prece a Deus ou a Jesus e aguarda os espíritos que vierem.
No Capítulo 6 ele escreve: "O espiritismo traz claramente traços próprios de religião. Primeiro, porque se apresenta como o reformador do cristianismo e como aquele que tem a verdadeira e única tradição verdadeiramente cristã. Em segundo lugar, diz que houveram (sic) três revelações divinas: através de Moisés, através de Jesus Cristo e através dos espíritos. Um terceiro elemento é que a doutrina kardecista tem uma doutrina codificada de caráter extremamente dogmática".
Surpreendente! Não flagramos ele no Capítulo 5 afirmando que o espiritismo "rejeita qualquer revelação divina"?
Chegamos ao Capítulo 7 onde, na intenção de demonstrar a dicotomia entre "reencarnação e individualidade", ele pretensamente cita "O Livro dos Espíritos", de Kardec, edição FEB de 1992, página 105, questão 136: "O espírito encarnado, segundo Kardec, não faz parte do homem como um todo, mas é independente... O corpo não é mais que envoltório". Incrível! Procure o leitor em qualquer edição de "O Livro dos Espíritos": apenas a última frase está lá, na questão 136.
E, ele continua: "Tem-se, a partir da reencarnação, um problema bastante complicado. Se o espírito constantemente busca novas existências para a sua purificação, desaparece totalmente o conceito de pessoa humana, ou seja, a personalidade humana, pois o espírito que tenho hoje certamente não é o meu e já foi no passado habitante de muitos corpos. Pergunta-se como fica a individualidade chamada João, Maria, Fernando, etc. Como permanece a minha individualidade hoje? Existindo a reencarnação, como vai ser?"
Estranha lógica, não? Poderíamos responder-lhe simplesmente: "Caro doutor, você não tem um espírito, você é um espírito, que tem, isto sim, um corpo. A personalidade humana é a manifestação transitória da individualidade permanente".
No Capítulo 8 da tese o autor tenta argumentar que "a noção (espírita) de corpo traz no seu bojo uma visão negativa, e aqui aparece o dualismo antropológico. Esta visão negativa do corpo em Kardec condiz com as práticas contraditórias na sociedade brasileira, principalmente na questão social, política e econômica".
Ora, o dualismo antropológico é anterior a Kardec; aliás, encontrado com freqüência também no catolicismo, este sim, formador das "práticas contraditórias da sociedade brasileira".
Mais adiante, no mesmo Capítulo, ele parte para um sofisma baixo, vil e cruel:
"Pode-se dizer que o espiritismo foi uma alavanca forte para a repressão militar, a ideologia da segurança nacional, tendo como principal articulador o General Golbery do Couto e Silva"(e aqui ele cita outro jesuíta: Schneider).
Ignorância histórica ou simples má-fé? Como se crer na primeira hipótese quando se trata de candidatos a doutores em filosofia? Não foram os espíritas, aliás muito fracos, na época, em número e expressão social, mas, sim, o clero católico a liderar as famigeradas "Marchas da Família com Deus pela Liberdade", verdadeiras alavancas do Golpe Militar de 64, que implantou a ideologia de segurança nacional, gerada por militares e civis católicos dentro do IPES (Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais) chefiado pelo Golbery.
E prossegue: "O curioso em tudo isso é que o desprezo pelo corpo levou a sociedade brasileira a atitudes estranhas e desumanas... É um homem triste e sem direção (o homem espírita), alienado e sem possibilidade de ser ele mesmo".
Essa referência a "atitudes estranhas e desumanas", eu entendo como insinuação à tortura, e afirmo: a tortura, prática comum em toda a América Latina, tem sua origem, seguramente, na Inquisição católica, que não só a institucionalizou, como a sacralizou. E o homem "triste, alienado, e sem possibilidade de ser ele mesmo" é o católico, que necessita da mediação do sacerdote para relacionar-se com Deus.
Neste mesmo Capítulo 8 ele continua por citações errôneas ou mal-feitas, terminando por afirmar: "Quanto ao perispírito, não há uma explicação científica sobre esta realidade. Pode-se dizer que o perispírito pertence ao mundo dos possíveis e dos arquétipos."
Bem, quanto a "uma explicação científica" de perispírito nem é necessário procurar no Espiritismo; basta transitar de olhos abertos pela parapsicologia, pela psicobiofísica, pela psicotrônica ou pela física quântica. Quanto à última frase, eu também posso colocar alma, Deus, diabo, inferno, ou outros adereços católicos no mundo dos arquétipos.
No Capítulo 9 ele discorre sobre "a pretensa cientificidade do kardecismo", procurando demonstrar que o Espiritismo é uma pseudo-ciência. Não vou aqui transcrever nem refutar esse Capítulo inteiro. Prefiro recomendar ao doutor e ao leitor a leitura da brilhante "Introdução ao Livro dos Espíritos", escrita pelo filósofo J. Herculano Pires, para a edição comemorativa daquele livro em 1957, da LAKE, e repetida em edições posteriores da mesma editora. Ali, Herculano Pires comprova o caráter ao mesmo tempo científico, filosófico e religioso do Espiritismo.
No Capítulo 10 ele ataca "o problema da liberdade no kardecismo": "O homem kardecista está sempre à mercê de forças externas, comprometendo a autonomia do ser humano como ser inteligente, livre, autônomo e maduro. O espírito encarnado nele é o que determina o rumo histórico de sua existência. Portanto, o homem kardecista não é um agente transformador da sociedade, e isto porque ...o mundo corporal é secundário. A preocupação do homem kardecista é vencer as etapas das purificações, e por isso, o homem kardecista não conhece a liberdade, é triste, solitário e alienado".
Novamente a estranha relação entre premissa e conclusão. E volta a confusão sobre "o espírito encarnado no homem". O doutor não quer entender que "o homem é o espírito encarnado". Quanto à liberdade e conseqüente responsabilidade pessoal pela própria vida, alguns chegam a acusar os espíritas de cruéis por dizerem às pessoas que os procuram para consolo de suas dores que elas é que são as responsáveis pelos seus destinos.
No Capítulo 11 retorna aquela paranóia intencional já manifestada no Capítulo 8. A "Cruzada dos Militares Espíritas" e pequenos grupos espíritas dentro de instituições militares como a AMAM ou o Colégio Militar do Rio, são citados para justificar a idéia da influência espírita sobre os responsáveis pelo regime militar. Ora, a grande maioria dos militares brasileiros é católica, haja vista a existência da figura do Capelão nos quartéis! Mas quê, a paranóia prossegue com perguntas capciosas como: "Por que o topo da pirâmide brasileira incentiva teorias como a antropologia kardecista? Exatamente porque esta faz o jogo do poder." E atinge, essa paranóia, o paroxismo na Conclusão do trabalho, quando tenta vincular o pobre movimento espírita a uma grande conspiração internacional capitalista contra os povos católicos!
Na Conclusão o doutor adiciona sofismas sobre sofismas, confundindo sempre as coisas com afirmações como: "... a doutrina espírita é anti-social... A quem legislar, se o homem, como se viu, não é livre para observá-las ou não, já que deve seguir forçosamente a direção imprimida pelo espírito do bem e do mal que o anima? ... Tem culpa este homem que, na sua existência, recebeu um espírito perverso que o induz a fazer o mal?" Meu Deus serei um gênio? Será tão difícil assim compreender que o ser reencarnante é o ser permanente, imortal, construtor de seu próprio destino? O ser não TEM um espírito, bom ou mal. O ser É um Espírito que, por ignorância pode ainda estar estagiando no mal! Será que os muitos bens materiais da Igreja contaminaram tanto o doutor que ele não consegue fazer diferença entre ter e ser? Não é o Espiritismo que prega a salvação pela graça divina, ou pela conversão, ou pelo batismo. Para a filosofia espírita o SER, pelos seus próprios esforços, pelos seus próprios atos, constrói seu destino, sua felicidade ou infelicidade. Mas, sempre, ele terá condições de melhorar sua situação, redimir-se de seus erros, pelo seu esforço, sem graças ou "pistolões" tão a gosto de certas seitas milenares. A lei básica do Espiritismo é a LEI DA EVOLUÇÃO. E isto veio a público dois anos antes da publicação da "Origem das Espécies", do Darwin, que viria implantar o paradigma evolucionista nas ciências, apesar da oposição da Igreja!
Concluindo, lembro que a ideologia da segurança nacional, as ditaduras militares e a tortura, aconteceram em toda a América Latina, com mais intensidade nos países de fala espanhola, e o que esses países têm em comum não é o espiritismo, é o catolicismo. Observando-se as mudanças ocorridas no final da Idade Média, a Reforma e a reação da Igreja, o surgimento do capitalismo e o progresso subseqüente nos países protestantes e católicos, fica evidente a responsabilidade da ideologia católica no atraso destes últimos. Na atualidade, cientes de que sua antropologia e sua sociologia estão esgotadas e desmoralizadas como paradigma, os pensadores católicos buscam um bode expiatório que, ao ser sacrificado, permita uma sobrevida da sua ideologia. Ora, o Espiritismo, aparentemente, principalmente em sua versão brasileira, religiosa, por apresentar características de antítese, reúne condições de subsidiar um novo paradigma antropológico e sociológico. Por isso é o alvo escolhido, a despeito de ser um grande sofisma responsabilizar, pela índole de um povo, uma ideologia que se insere na cultura popular no último quinto de sua história. Na verdade, o catolicismo gerou a "indolência brasileira", que, a muito custo o espiritismo poderá modificar.
João Alberto
Vendrani Donha
Curitiba, Paraná
Abril 2001
Centro Espírita Luz Eterna - CELE
cele@cele.org.br.br